• 5 de fevereiro de 2026

Da polpa até o caroço, agora o açaí pode render muito mais ao Pará. E não é só como alimento.

Rosa Cardoso/ADEPARA

No Pará, açaí não é só comida: é identidade, renda e, agora, política econômica. O decreto estadual que adiou a cobrança do ICMS sobre o caroço de açaí, aquele que sobra depois da tigela generosa, parece técnico à primeira vista, mas carrega um efeito bem concreto: dar fôlego a uma cadeia produtiva que movimenta o Pará de ponta a ponta. 

O caroço, por muito tempo tratado como resíduo, virou protagonista silencioso da bioeconomia amazônica. Ele aquece fornos, vira biomassa energética, alimenta pequenas indústrias e cria oportunidades onde antes havia descarte. Ao adiar o pagamento do imposto nas operações internas, o governo mexe num ponto sensível do negócio: o caixa. Produtores, transportadores e empresas ganham tempo para girar capital, investir e empregar antes de acertar as contas com o fisco, como registra matéria do portal OESTADONET.

O impacto potencial vai além da contabilidade. O açaí é uma das engrenagens centrais da economia paraense, responsável por milhares de empregos diretos e indiretos, do ribeirinho que sobe no açaizeiro ao caminhoneiro que cruza estradas; do batedor do bairro à indústria que transforma subproduto em energia. Quando um elo respira melhor, o resto da corrente agradece.

O Pará domina a produção do fruto no Brasil, respondendo por mais de 87% do total, e transformou o açaí em peça-chave não só da mesa do paraense, mas também da bioeconomia local, com produtos que namoram com a exportação e agregam valor em diferentes elos da cadeia produtiva.

Com o diferimento do imposto, há um estímulo claro à industrialização local. Com menos peso tributário imediato, torna-se mais atraente transformar o caroço no próprio estado, agregando valor antes que ele saia do Pará. É dinheiro que circula mais tempo por aqui, fortalecendo municípios produtores e reduzindo a dependência de atividades informais ou de baixo retorno.

E tudo isso sem tirar o açaí de seu lugar mais sagrado: a mesa. O fruto continua símbolo cultural, hábito diário e motivo de debate acalorado: grosso ou fino, puro ou com açúcar, com farinha d’água ou farinha de tapioca? A diferença é que, agora, até o que sobra da cuia entra na conta do desenvolvimento.

No fim das contas, o decreto não cria um milagre fiscal, mas ajusta o relógio da economia. Ao trocar a pressa do imposto pela paciência do crescimento, o Pará aposta que o açaí, completinho, da polpa até o caroço, pode render mais do que sabor: pode render futuro.

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