- 27 de fevereiro de 2026
Cresce o consumo de álcool entre as mulheres em Belém e aumenta o risco para a saúde dos consumidores
Enquanto metade dos brasileiros adultos admite beber e 1 em cada 5 reconhece exagerar no consumo de álcool, os impactos dessa realidade são sentidos com preocupação em Belém, com registros inquietantes de internações e demandas de tratamento que já chamam a atenção de autoridades de saúde. No Brasil, mesmo com uma leve queda na proporção de quem bebe, padrões de consumo pesado, início precoce entre adolescentes e crescimento entre mulheres se consolidam como sinais de alerta.
Um estudo epidemiológico realizado na Região Metropolitana de Belém identificou que, entre 2019 e 2023, houve hospitalizações por transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de álcool, com predomínio de homens na faixa dos 40 aos 49 anos, ainda que represente apenas uma parte da demanda real por atendimento.
O estudo publicado por Lídia Maria Cardoso Lima, Maria Micilane da Cruz Costa, Keli Carvalho da Silva e Karina Faibe Freitas Takeda, da Universidade da Amazônia, ajuda a compreender o perfil epidemiológico de internações por transtornos mentais. O trabalho mirou em comportamentos apresentados devido ao uso de álcool na região metropolitana de Belém. Mesmo que tenha sido uma amostra, os resultados da pesquisa são preocupantes. “Os efeitos desse consumo são considerados fatores de risco na saúde e provocam danos crônicos e agudos que acendem o alerta para um problema de saúde pública”, dizem as pesquisadoras.
Por que se preocupar?
Especialistas em saúde pública alertam que o uso nocivo de álcool não se limita à intoxicação momentânea, mas é um fator de risco para múltiplas condições de saúde crônicas e agudas. O álcool, quando consumido em excesso ou de forma regular, está associado ao desenvolvimento de doenças do fígado, como cirrose e hepatites alcoólicas,
transtornos mentais e comportamentais, incluindo dependência e alterações de humor, além de complicações cardiovasculares e neurológicas. Também está associado a acidentes de trânsito e violência, episódios de depressão e risco de suicídio, principalmente entre jovens.
No contexto nacional, pesquisas apontam que cerca de um em cada três adultos pratica consumo pesado episódico e que aproximadamente um em cada nove já apresenta critérios para transtorno por uso de álcool. E o que é pior: os hábitos se iniciam cada vez mais cedo.
O Ministério da Justiça e Segurança Pública expõe dados sobre dependência de álcool e impactos na saúde e no trânsito. Esses dados confirmam que 63,6% dos brasileiros já consumiram álcool, mais de 44% beberam no último ano, 31,6% beberam no mês passado e a média de consumo semanal por pessa é de 5,3 doses. O início é precoce, pois começa entre os 14 e os 17 anos, sendo que 56% dos jovens começaram a beber álcool antes da maioridade.
Embora dados estaduais específicos sobre jovens de Belém ainda sejam escassos, as tendências nacionais mostram que a faixa etária de 18 a 34 anos é uma das mais propensas a consumo frequente e pesado no Brasil, cenário que deveria saltar aos olhos de pais, escolas e autoridades.
Esse padrão preocupa, pois o cérebro em formação é mais vulnerável aos efeitos neuroquímicos do álcool, aumentando o risco de dependência ao longo da vida e de prejuízos cognitivos que podem repercutir sobre desempenho escolar, relações sociais e escolhas de estilo de vida.
Onde buscar ajuda
Em Belém, quem enfrenta problemas relacionados ao uso nocivo de álcool tem à disposição serviços públicos e comunitários, incluindo o Centro de Atenção Psicossocial – Álcool e outras Drogas (CAPS AD), um serviço público do Sistema Único de Saúde para atendimento a adolescentes a partir de 13 anos e adultos com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas.
Há também o CAPS Marajoara (Caps AD III), uma unidade em funcionamento 24h, que recebe pacientes com sofrimento intenso por dependência e realiza triagem, acompanhamento clínico e terapêutico. Sem esquecer dos grupos de ajuda mútua como Alcoólicos Anônimos (AA), que oferecem encontros de apoio à sobriedade e à recuperação. Organizações locais como a Associação Beneficente de Capelania Social (ABECAS), que atuam no acolhimento de moradores em situação de vulnerabilidade e dependência, também ajudam os dependentes.
O cenário atual, confirmado pelas pesquisas e estudos, exige mais políticas públicas articuladas de prevenção, educação e tratamento precoce. Reduzir os impactos do uso nocivo de álcool envolve campanhas de conscientização, restrição à publicidade direcionada a jovens, ampliação de serviços de atenção psicossocial e suporte comunitário efetivo, e o estímulo deve partir não apenas da sociedade, mas da Prefeitura de Belém, por exemplo.
Sem ação integrada, o consumo de álcool corre o risco de se consolidar como um problema de saúde pública negligenciado, com custo humano e social que Belém não pode mais ignorar.