- 18 de fevereiro de 2026
Com frota de 592 mil veículos, Belém testa limites do trânsito e chega próximo da saturação, alerta especialista
Belém encerrou 2025 com 592.409 veículos registrados, segundo dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran). O número coloca a capital paraense como a segunda maior frota da Região Norte, atrás apenas de Manaus, tornando visível uma transformação silenciosa. Há mais carros nas ruas, mais motos entre os corredores de tráfego e mais tempo gasto no deslocamento diário.
No recorte estadual, o cenário é ainda mais expressivo. O Pará ultrapassou a marca de 3.028.300 veículos, liderando o ranking de frota na Região Norte. Em apenas um ano, foram mais de 218 mil novos registros, crescimento de 7,8%. Em Belém, o avanço foi de 5,6%, com 31.443 veículos a mais em comparação a 2024.
A expansão não se concentra apenas na capital. Municípios como Ananindeua (208.133 veículos), Marabá (167.893) e Parauapebas (159.397) figuram entre os maiores volumes da região, ao lado de Santarém, Castanhal, Redenção e Altamira. O aumento espalha-se pelo território e impõe desafios comuns: infraestrutura viária limitada, transporte público pressionado e gargalos históricos.
Saturação à vista
A leitura técnica do fenômeno é direta: a malha viária não cresceu no mesmo ritmo da frota. Vias como a Avenida Almirante Barroso e a BR-316, corredores estruturantes da Região Metropolitana, concentram congestionamentos frequentes, agravados em horários de pico e durante o período chuvoso, quando alagamentos reduzem ainda mais a capacidade de circulação.
Para o especialista em gestão e segurança no trânsito Wender Morais, o crescimento acelerado da frota exige resposta articulada do poder público. Em entrevistas a veículos locais, ele tem defendido reforço de fiscalização, melhoria na sinalização e políticas consistentes de mobilidade urbana como medidas imediatas. Segundo ele, Belém se aproxima de um ponto crítico de saturação, caso não haja incentivo efetivo ao transporte coletivo e à mobilidade ativa.
A equação é conhecida: mais veículos individuais significam mais disputas pelo mesmo espaço. O resultado aparece em atrasos logísticos, aumento do consumo de combustível e queda de produtividade. O impacto é sentido por motoristas de aplicativo, taxistas e trabalhadores do setor de entregas.
Peso das motocicletas
Se o crescimento da frota já é significativo, chama atenção a expansão das motocicletas. No Pará, as motos representam parcela expressiva dos registros e vêm se consolidando como alternativa de mobilidade e trabalho, especialmente em centros urbanos e cidades do interior. Em 2025, já havia mais de 1,24 milhão de motocicletas registradas no estado.
O problema é que essa expansão se reflete nas estatísticas de acidentes. Dados do Departamento Estadual de Trânsito do Pará (Detran-PA) e de levantamentos nacionais indicam que motociclistas figuram, de forma recorrente, entre os principais protagonistas de ocorrências viárias. Nos últimos dois anos, as motos estiveram envolvidas em parte significativa dos registros de acidentes com vítimas no estado, um quadro associado à maior exposição do condutor, à vulnerabilidade estrutural do veículo e, não raramente, a falhas de fiscalização e imprudência.
O número de acidentes de motos com feridos até diminuiu um pouco de 12.861 em 2023 para 12.201 em 2024. Por outro lado, as mortes de motociclistas em acidentes de trânsito no estado cresceram de 1.015 óbitos em 2023 para 1.284 em 2024, um aumento de cerca de 23%.
A combinação entre aumento da frota de motos, tráfego congestionado e infraestrutura insuficiente amplia os riscos. Em corredores saturados, motociclistas circulam entre faixas, disputam espaço com veículos maiores e enfrentam pavimento irregular e sinalização deficiente.
O avanço da motorização no Pará acompanha uma tendência nacional de ampliação do crédito e maior acesso ao veículo próprio. Mas, em centros urbanos como Belém, a expansão ocorre em um território marcado por limitações históricas: ruas estreitas, poucas alternativas de ligação entre bairros e dependência de eixos estruturais já sobrecarregados.