• 11 de fevereiro de 2026

Com 1.566 registros, Pará expõe avanço do cyberbullying enquanto União Europeia usa tecnologia para denúncias

Fabio Rodrigues/Agência Brasil

Enquanto a União Europeia anuncia o desenvolvimento de um aplicativo para que jovens denunciem casos de cyberbullying, de forma confidencial, com armazenamento seguro de provas digitais, os números do Pará revelam que a urgência do problema já se impõe com força no Norte do Brasil.

Em 2023, os Cartórios de Notas do Pará registraram 1.566 atas notariais relacionadas a bullying e cyberbullying, segundo levantamento do Colégio Notarial do Brasil – Seção Pará. O número representa um crescimento de 29% em relação a anos anteriores: foram 874 registros em 2020 e 1.228 em 2021. Em 2007, início da série histórica, havia apenas oito ocorrências formalizadas.

A ata notarial é um instrumento jurídico usado para comprovar conteúdos digitais (mensagens, postagens, imagens) que podem desaparecer com um clique. O salto no volume de registros indica não apenas maior conscientização das vítimas, mas também a expansão de conflitos virtuais envolvendo crianças e adolescentes no estado.

Na Grande Belém

Na Região Metropolitana de Belém, investigações recentes conduzidas pela Polícia Civil expõem o alcance do problema. Agora mesmo em fevereiro, durante a operação “Salvaguarda II”, um homem de 20 anos foi preso em flagrante por armazenar conteúdo de abuso sexual infantil em dispositivos eletrônicos. A ação foi coordenada pela Divisão de Combate a Crimes Contra Grupos Vulneráveis Praticados por Meios Cibernéticos (DCCV).

No ano anterior, a segunda fase da operação “Mão de Ferro” cumpriu mandados de busca e apreensão contra suspeitos de integrar grupos virtuais que praticavam ameaças, cyberbullying, incentivo à automutilação e compartilhamento de material envolvendo menores. As investigações alcançaram tanto adultos quanto adolescentes.

Em dezembro de 2025, o Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) deflagrou a operação “Luckwzy” em Ananindeua, para enfrentar graves crimes virtuais, incluindo abuso sexual infantil e extorsão, com mandado de busca e internação provisória de um adolescente investigado por compartilhar cenas de estupro e outros conteúdos criminosos em plataformas digitais. O caso teve repercussão nacional e evidenciou a complexidade das redes virtuais que envolvem menores como vítimas. E, por vezes, como autores.

Para o ex delegado-geral da Polícia Civil do Pará, Walter Resende, a escalada de registros exige resposta articulada. “A internet não é terra sem lei. Temos investido na especialização das equipes e na investigação qualificada de crimes cibernéticos, principalmente quando envolvem crianças e adolescentes. A denúncia é fundamental para que possamos agir”, afirmou, em balanço divulgado pela Secretaria de Segurança Pública.

O cenário paraense dialoga com uma tendência nacional. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam crescimento dos crimes cibernéticos envolvendo menores nos últimos anos. Pesquisas sobre o uso da internet no Brasil indicam que uma parcela expressiva de adolescentes já sofreu humilhações, ameaças ou exposição vexatória online.

Marcas profundas

O cyberbullying amplia a violência tradicional ao romper os limites físicos da escola. Comentários ofensivos, perfis falsos, montagens e vazamento de imagens íntimas mantêm a agressão ativa 24 horas por dia. Psicólogos relatam aumento de quadros de ansiedade, depressão e evasão escolar entre as vítimas. Em situações extremas, há risco de automutilação e suicídio.

A União Europeia aposta na tecnologia como aliada. O aplicativo anunciado permitirá que jovens registrem provas de assédio de forma sigilosa, fortalecendo investigações e reduzindo a subnotificação. A proposta integra um plano mais amplo de responsabilização de plataformas e proteção digital de menores.

No Brasil, houve avanços recentes. A Lei nº 14.811, em vigor desde 2024, passou a tipificar bullying e cyberbullying no Código Penal, com pena de dois a quatro anos de reclusão quando praticado em ambiente virtual. No Pará, além das delegacias especializadas, programas educativos têm sido realizados em escolas públicas, com apoio de órgãos estaduais e federais.

Especialistas, porém, alertam que a repressão não basta. Defendem educação digital contínua, formação de professores e maior compromisso das plataformas na moderação de conteúdo. A alta nos registros cartoriais no Pará sugere que mais vítimas estão buscando respaldo legal, mas também que a violência digital se tornou rotina.

Se a União Europeia transforma aplicativos em escudos tecnológicos, o Pará revela que o problema já deixou marcas profundas. Entre notificações formais, operações policiais e relatos silenciosos nas salas de aula, a infância enfrenta um inimigo que cabe na palma da mão. A tela ilumina o rosto dos jovens. Pode ser janela para o mundo, ou palco de exposição e crueldade. A diferença, cada vez mais, depende da rapidez com que a sociedade e o Estado conseguem transformar cliques em proteção.

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