• 11 de abril de 2026

Carne em alta, boi valorizado. O Pará está no epicentro da nova corrida global da proteína.

Pedro Guerreiro/Agência Pará

O recorde recente das exportações brasileiras de carne bovina, com alta de quase 20% no volume e avanço superior a 18% nos preços internacionais, não é apenas um fenômeno nacional. Ele se comprova no Pará, onde a pecuária vive uma espécie de “tempestade perfeita”. A demanda externa está aquecida, a valorização do boi gordo é real e o protagonismo crescente no mercado de gado em pé se mantém aceso.

No primeiro trimestre de 2026, o Brasil embarcou 701,6 mil toneladas de carne bovina, alta de 19,7% sobre igual período de 2025, com preço médio de US$ 5,68/kg. Foi o maior já registrado para um início de ano, segundo dados da Comex compilados por consultorias do setor e publicados pelo portal Farmnews, especializado no agronegócio e pecuária. O movimento consolida um ciclo iniciado em 2025, quando o país exportou 3,09 milhões de toneladas e faturou US$ 16,6 bilhões, recorde histórico. É nesse contexto que o Pará se reposiciona.

Boi no navio

Mais do que carne, o estado exporta o animal vivo e lidera com folga. Cerca de dois terços de todo o gado em pé embarcado pelo Brasil saem de portos paraenses, com destaque para Vila do Conde. Quem não se lembra do naufrágio do navio Haidar, que deu ampla visibilidade para essa operação?

O mercado ainda está em expansão. Em 2025, o país superou 1 milhão de cabeças exportadas, com receita bilionária, e há projeções de até 1,5 milhão de animais embarcados ao ano, segundo o portal Brasil Agro. A atividade, embora represente menos de 1% do comércio global, tornou-se estratégica por oferecer liquidez rápida ao produtor e atender mercados específicos, sobretudo no Oriente Médio.

No Pará, isso significa uma pecuária menos dependente exclusivamente dos frigoríficos. Nessa pecuária, o boi é ativo financeiro: pode virar carne industrializada ou embarcar vivo, o que estiver pagando melhor. O estado abriga um dos maiores rebanhos do país, inserido em um Brasil que já soma mais de 238 milhões de cabeças de gado. A expansão da fronteira pecuária, especialmente no Norte, foi decisiva para sustentar o crescimento das exportações.

Mas o avanço vem acompanhado de tensão. A pressão internacional por rastreabilidade e sustentabilidade cresce, impulsionada por mercados exigentes e pela necessidade de garantir cadeias livres de desmatamento. Esta circunstância se tornou um dos principais gargalos para a carne amazônica ganhar ainda mais espaço global, como apontam estudos da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).

Consumo em xeque

Se o produtor comemora, o consumidor sente. A valorização externa da carne puxa os preços internos e reconfigura o mercado doméstico. Com o boi gordo valorizado, contratos futuros já superando R$ 370 por arroba em 2026, a tendência é de oferta mais ajustada e carne mais cara no açougue. No Pará, onde a produção cresce, está o retrato vivo desse paradoxo. Tem mais boi no pasto, mas nem sempre mais carne acessível no prato.

O Pará deixou de ser apenas fronteira pecuária para se tornar peça-chave na engrenagem global da proteína animal. Exporta carne, exporta boi vivo, atrai investimentos e se conecta diretamente a mercados como China e Oriente Médio, hoje os grandes motores da demanda.

No entanto, o futuro do setor no estado será definido menos pelo tamanho do rebanho e mais pela capacidade de responder a uma pergunta cada vez mais incômoda: de onde vem e como é produzida a carne que o mundo consome?

No ritmo atual, o Pará já não é coadjuvante. É protagonista. Resta saber se conseguirá sustentar esse papel sem que o pasto avance além do que o próprio mercado está disposto a aceitar.

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