- 15 de fevereiro de 2026
Belém registra temperaturas até 6°C mais quentes no centro da cidade e vira ilha de calor na Amazônia
Quando o sol bate forte sobre a Avenida Presidente Vargas, no centro de Belém, a sensação não é de verão equatorial. É como estar dentro de um forno. Não é ilusão. Estudos científicos recentes confirmam que a capital paraense sofre intensamente com o fenômeno conhecido como ilha de calor urbano. Artigo publicado na Revista Brasileira de Gestão Urbana mostra que existem áreas dentro da cidade onde a temperatura do ar e do solo podem ser vários graus maior do que em zonas naturais próximas.
Pesquisadores que analisaram imagens de satélite constataram que Belém, apesar de ser cercada pelo maior bioma florestal do planeta, tem trechos urbanos cuja temperatura na superfície pode estar até 6 °C acima das áreas florestais vizinhas, como a Área de Proteção Ambiental do Arquipélago do Combu. A própria metrópole, comparada à floresta densa, tem média de superfície até 2,6 °C mais quente.
O que explica essa contradição tropical? Em nome do crescimento urbano, Belém perdeu grandes manchas de vegetação e substituiu a terra viva pelo que os climatologistas chamam de “infraestrutura cinza”, formada por concreto, asfalto e edificações que absorvem e irradiam calor. Pesquisas com séries temporais de satélite entre 2003 e 2018, citadas pela Redalyc (Rede de Revistas Científicas da América Latina e Caribe, Espanha e Portugal), indicam que o aumento da urbanização está diretamente relacionado à queda do índice de vegetação e à elevação das temperaturas superficiais em áreas densamente construídas.
Para Rafael Salomão, doutor em Ciências Agrárias e pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi, referência em vegetação urbana e clima, o diagnóstico é claro: “O problema não é apenas o aumento de áreas construídas, mas a falta de árvores. Sem árvores, o calor fica preso e a cidade se transforma em um receptor de calor durante todo o dia,” explica ele, em entrevista recente sobre o tema.
O impacto desse processo recrudesce quando se olha para os bairros periféricos. Em zonas com cobertura vegetal reduzida, em alguns casos abaixo de 20%, a temperatura pode chegar a 5°C acima da observada nas zonas naturais próximas à cidade. As consequências vão além da sensação térmica: são riscos à saúde, pior desempenho do sono, aumento do uso de ar-condicionado, gastos energéticos e desigualdade climática, que concentra o calor onde vivem os mais pobres.
A conexão entre meio ambiente urbano e bem-estar é tema de debate global, mas em Belém ganha urgência local. A cidade, que vive sob uma umidade alta e chuvas frequentes, também enfrenta episódios de calor persistente que sobrecarregam serviços de saúde e ampliam a vulnerabilidade de crianças, idosos e trabalhadores ao ar livre.
Especialistas apontam soluções que não exigem tecnologia futurista: reposição de árvores nativas, proteção de fragmentos florestais periurbanos e planejamento urbano pensado para ventos e sombras podem reduzir drasticamente as temperaturas locais. Um estudo da Redalyc que combinou dados climáticos e uso do solo na região metropolitana de Belém ressalta que trechos vegetados tendem a ter superfícies significativamente mais frescas e que a vegetação aparece como uma ferramenta essencial de resiliência climática.
Mas a mudança pedida pelos cientistas depende de vontade política e participação popular. Para muitos moradores, como Tatiane Trindade, residente na Cremação e que há décadas lida com o calor escaldante nas esquinas do bairro para ir a pé ao trabalho, “Belém sempre foi quente, mas agora parece que assa”. No coração da Amazônia, onde o verde deveria ser sombra constante, o calor urbano expõe uma verdade incômoda. Sem natureza integrada ao espaço urbano, até a selva pode virar um deserto de concreto.