- 26 de dezembro de 2025
A cada mandato, Lula muda o tom do discurso de fim de ano, mas mantém fidelidade ao otimismo
As mensagens de Natal dos presidentes brasileiros são mais do que mera tradição. Elas simbolizam o momento político e social do país e a forma como cada líder dialoga com a nação. No caso de Luiz Inácio Lula da Silva, essa tradição revela a evolução do seu papel e do Brasil em diferentes fases da história recente, correspondentes aos três mandatos.
Esperança, inclusão social e mobilização popular (2003–2006)
No início do século XXI, Lula chegou ao Palácio do Planalto carregando uma forte expectativa popular. Vindo de uma longa trajetória de movimentos sociais, inaugurou seu governo com ampla aprovação e foco na inclusão dos mais pobres, redução da desigualdade e crescimento com justiça social. A mensagem de Natal nesse período refletia essa esperança de transformação e o papel social do Estado como instrumento de justiça.
“O Natal nos lembra que ninguém pode ser feliz sozinho, e que um país só será justo quando todos tiverem oportunidades.”
Essa frase traduz a identidade daquele momento: Lula como líder social e articulador de uma nova dinâmica de cidadania e inclusão econômica.
Otimismo, consolidação e projeção internacional (2007–2010)
Com a economia em crescimento e altos índices de aprovação popular, o segundo mandato de Lula teve um tom mais estável e confiante. O Brasil passou a ser visto como protagonista global em fóruns econômicos e políticos, e a mensagem de Natal traçava um balanço positivo das conquistas sociais, fortalecimento institucional e maior inserção externa.
A fala natalina desse período carregava orgulho pelas melhorias sociais e econômicas, reforçando a ideia de um país que “saiu do lugar” depois de décadas de desafios estruturais.
“O Brasil mostrou que pode crescer, incluir e enfrentar dificuldades sem deixar ninguém para trás.”
Nesse trecho, está a identidade de um Lula que já não apenas promete, mas celebra resultados concretos.
Desafio, reconstrução democrática e balanço social (2023–2026):
No retorno ao Palácio do Planalto, Lula encontrou um Brasil muito diferente do que havia deixado. A polarização política se intensificou, a democracia foi testada, inclusive com ataques às instituições, e desafios sociais complexos ressurgiram após crises econômicas e sanitárias. A aprovação popular nesse terceiro mandato tem sido mais dividida e segmentada, acompanhando o cenário político nacional mais fragmentado.
Na mensagem deste Natal de 25 de dezembro de 2025, Lula fez um balanço do ano e reforçou prioridades sociais e políticas em rede nacional de rádio e televisão. Ele destacou a superação de desafios econômicos e sociais, como a saída do Brasil do Mapa da Fome. Também pontuou as políticas de isenção do imposto de renda para faixas de renda mais baixas, a retomada de programas sociais e o combate a dificuldades internacionais, como as tarifas comerciais dos Estados Unidos.
Na mesma mensagem, Lula também enfatizou pautas que ganham centralidade na agenda pública, como a defesa do fim da escala de trabalho 6×1, considerada injusta para os trabalhadores brasileiros, e fez um apelo à união e ao diálogo como fundamentos do país.
“O fim da escala 6×1, sem redução de salário, é uma demanda do povo que cabe a nós, representantes do povo, escutar e transformar em realidade.”
Pisadas na bola em três momentos
Os três mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva foram marcados por crises éticas e controvérsias diplomáticas. Nos dois primeiros, os piores momentos foram o escândalo do Mensalão (2005), que revelou a compra de apoio parlamentar, e as investigações do Petrolão, que culminaram em sua posterior prisão e em condenações, depois anuladas, por corrupção e lavagem de dinheiro.
No terceiro mandato (2023-2025), destacam-se falas polêmicas sobre a guerra na Ucrânia e comparações entre as ações de Israel em Gaza e o Holocausto, que geraram fortes críticas internacionais. Além disso, novos desgastes surgiram com fraudes biolionáris no INSS e o afastamento de ministros sob suspeita. Neste terceiro mandato, a popularidade de Lula caiu. Em 2025, o presidente petista atingiu sua pior aprovação histórica (24%), pressionado pela inflação nos alimentos e dificuldades na articulação com o Congresso.
Esperança, confiança e cautela
Ao longo dos três mandatos de Lula, as expectativas dos brasileiros também se transformaram. No primeiro, predominava a esperança quase inaugural de quem acreditava que o país finalmente incluiria os esquecidos. No segundo, essa expectativa se converteu em confiança: o Brasil parecia ter encontrado um caminho estável de crescimento e reconhecimento.
No atual mandato, porém, o sentimento é mais complexo. Ele mistura antagonismos políticos, incertezas econômicas e tensões institucionais com uma esperança cautelosa de reconstrução, diálogo e algum alívio social. É um Brasil mais dividido, mas ainda disposto a acreditar que é possível melhorar.
Talvez por isso caiba bem a ironia afetuosa de Luiz Fernando Veríssimo, para lembrar que a esperança brasileira nunca é ingênua, mas também não se entrega: “O problema do Brasil não é o brasileiro, é o otimismo.” E, ainda assim, seguimos insistindo nele — porque desistir nunca fez parte de nossas vidas.