• 27 de maio de 2026

Número de homicídios ocultos amplia a subnotificação da violência no estado do Pará

Reprodução: PCPA

O Pará convive há décadas com taxas explosivas de violência, conflitos agrários e expansão do crime organizado no interior amazônico. Agora, um novo dado revela outra dimensão da crise: parte dessas mortes sequer entra oficialmente nas estatísticas de assassinato. Segundo o Atlas da Violência 2025, o Brasil registrou 51,6 mil “homicídios ocultos” entre 2013 e 2023, casos com fortes indícios de assassinato, mas classificados pelo Estado como mortes violentas de causa indeterminada. 

No Pará, onde a precariedade da investigação criminal se soma às enormes distâncias territoriais e à presença limitada do Estado em áreas remotas, especialistas avaliam que o fenômeno tende a ser ainda mais grave do que os números oficiais conseguem captar. Em municípios do sul e sudeste paraense, marcados por disputa de terra, garimpo ilegal e facções criminosas, mortes muitas vezes são registradas sem conclusão definitiva sobre autoria ou circunstância. 

Os homicídios ocultos são identificados por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública a partir do cruzamento de dados sobre perfil da vítima, local da ocorrência, uso de arma de fogo e contexto da morte. Quando um caso oficialmente aparece apenas como “morte suspeita” ou “causa indeterminada”, mas reúne características típicas de execução, ele passa a integrar a estimativa dos chamados homicídios ocultos.

A metodologia busca corrigir uma distorção histórica da segurança pública brasileira: a incapacidade do sistema de registrar adequadamente as mortes violentas. Em 2023, o país teve cerca de 135 mil ocorrências classificadas sem definição clara entre acidente, suicídio ou homicídio. Segundo o Atlas, 38% desses registros apresentavam perfil compatível com assassinato.

Embora estados como Bahia, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo liderem o volume absoluto de homicídios ocultos, pesquisadores apontam que a realidade amazônica impõe obstáculos específicos à produção de estatísticas confiáveis. Em regiões isoladas do Pará, perícias podem demorar dias para chegar ao local do crime. Há cidades sem estrutura adequada de necropsia e municípios onde a investigação depende do deslocamento de equipes por estrada, rio ou áreas de difícil acesso.

A consequência é um apagamento parcial da violência real. Mortes que deveriam ser tratadas como homicídio acabam absorvidas por categorias genéricas, reduzindo artificialmente os índices oficiais e dificultando a formulação de políticas públicas.

O problema também revela desigualdades profundas. Assim como ocorre nos homicídios reconhecidos oficialmente, os casos ocultos atingem majoritariamente homens jovens, negros e moradores de periferias urbanas ou áreas vulneráveis. No Pará, esse perfil se repete nas regiões metropolitanas e nas cidades pressionadas pelo avanço do garimpo, do narcotráfico e dos conflitos fundiários.

De acordo com o Ipea, a subnotificação afeta diretamente a capacidade do Estado de investigar crimes e identificar padrões de atuação de facções e grupos armados. Quando uma morte deixa de ser classificada como homicídio, ela também sai do radar das políticas de prevenção e repressão.

O Atlas da Violência alerta que os homicídios ocultos podem criar uma falsa sensação de melhora nos indicadores de segurança pública. A queda oficial das mortes violentas, em alguns casos, pode esconder falhas de registro e deficiência investigativa.

No Pará, onde a violência frequentemente se espalha por áreas em que o poder público chega tarde, ou simplesmente não chega, os homicídios ocultos expõem uma tragédia dupla. Há pessoas assassinadas sem justiça, sem resposta estatal e, em muitos casos, sem sequer reconhecimento oficial de que foram vítimas de um crime.

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