• 26 de abril de 2026

Pará avança no biodiesel, mas ainda ocupa papel periférico na engrenagem nacional

Foto: Agência Pará

O mercado de biodiesel no Brasil vive um ciclo de expansão impulsionado pela elevação da mistura obrigatória ao diesel e pelo crescimento da agroindústria. Em 2024, a cadeia da soja e do biodiesel movimentou cerca de R$ 650 bilhões no país, o equivalente a 5,5% do PIB nacional, de acordo com dados do centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) e da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove). É um cenário biolionário em que o Pará ainda aparece timidamente, como se estivesse atrás da moita. Pra “variar”. o estado é mais relevante como fornecedor de matéria-prima do que como polo industrial consolidado.

A cadeia do biodiesel é estruturada em três grandes etapas: produção agrícola, processamento industrial e distribuição. Altamente concentrado, o setor depende majoritariamente do óleo de soja. É justamente aí que o Pará se diferencia, mas ao mesmo tempo se limita.

No estado, o protagonismo vem do dendê (óleo de palma), cultura adaptada ao clima amazônico e com produtividade superior à da soja. Ainda assim, essa matéria-prima responde por uma fração reduzida da produção nacional, o que restringe o peso relativo do Pará.

A participação paraense ocorre principalmente por meio de projetos integrados com a agricultura familiar. Nos polos produtivos do nordeste do estado, como Tailândia, Moju, Acará e Tomé-Açu, a cadeia do dendê alcança seu pico de atividade envolvendo cerca de 25 mil a 30 mil pessoas diretamente, entre agricultores familiares integrados, trabalhadores rurais e empregados da agroindústria. Considerando efeitos indiretos (transporte, serviços e apoio), esse contingente pode superar 50 mil pessoas em períodos de maior produção.

Em termos econômicos, embora o Pará represente uma fatia pequena do total nacional, o impacto regional é significativo. Estimativas indicam que a cadeia do dendê e insumos associados ao biodiesel movimenta entre R$ 1,5 bilhão e R$ 2 bilhões por ano no estado do Pará, somando produção agrícola e primeira transformação industrial. 

Desse montante, uma parcela relevante chega ao campo. Os agricultores familiares integrados recebem, em média, algo entre R$ 25 mil e R$ 40 mil anuais por unidade produtiva, o que resulta em uma massa de renda estimada entre R$ 400 milhões e R$ 600 milhões distribuídos diretamente aos produtores paraenses.

Ainda assim, o principal gargalo permanece: a industrialização. O Pará tem participação limitada na etapa de transformação em biodiesel. Grande parte do óleo vegetal produzido segue para outros estados, onde se concentram as usinas e o refino. Isso reduz o valor agregado capturado localmente e limita o peso do estado na cadeia completa.

Paradoxo persistente

O processo de fabricação do biodiesel é relativamente padronizado. Óleos vegetais passam por transesterificação, uma reação química que os converte em combustível e gera glicerina como subproduto. Essa etapa exige escala industrial e infraestrutura logística, fatores que ainda favorecem regiões mais próximas dos grandes centros consumidores.

No conjunto, a cadeia envolve ao menos cinco atividades: cultivo, extração de óleo, processamento químico, distribuição e comercialização. O Pará tem presença relevante nas duas primeiras, justamente as de menor valor agregado, e participação ainda incipiente nas demais.

Do ponto de vista econômico, isso ajuda a explicar o paradoxo: embora o Brasil tenha mais de 2,2 milhões de trabalhadores ligados à cadeia da soja e do biodiesel, a maior parte da renda e da industrialização segue concentrada fora da região Norte, como indica o Relatório da Cadeia da Soja e Biodiesel, elaborado anualmente pelo Cepea em parceria com a Abiove.

Dados de 2024 e projeções para 2025 confirmam essa disparidade.

O estado do Pará ocupa hoje uma posição intermediária. É estratégico como fronteira agrícola, é forte pela vocação para culturas tropicais, mas ainda é periférico na geração de valor industrial.

Se conseguir atrair usinas, ampliar a escala de processamento e integrar melhor sua produção à cadeia nacional, o Pará pode transformar o dendê em vetor de desenvolvimento regional. Caso contrário, continuará desempenhando um papel conhecido na economia brasileira: fornecedor de riqueza bruta, enquanto o valor final segue sendo capturado, com muito mais cifrões, em outros lugares.

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