- 23 de abril de 2026
Com aulão ao ar livre e Libras, comunidade surda ocupa o Forte do Presépio para reivindicar o espaço urbano
No próximo dia 26 de abril, a partir das 8h30, quando o Sol atravessar as muralhas de pedra do Forte do Presépio, um conjunto de mãos terão a oportunidade de se expressar. Em silêncio, os corpos em movimento, os gestos desenhando narrativas no ar. Será uma aula pública diferente: “Comunidade surda nas ruas de Belém. A cidade também é deles”. Um evento que ocupa o espaço urbano como um convite para aprender fora da sala, transformando a cidade em território de troca.
Por trás do evento está o Instituto Felipe Smaldone. A proposta é direta e potente: uma aula pública aberta, com participação de tradutores de Libras, conduzida pelo professor Michel Pinho, especialista em patrimônio histórico e cultural.
O encontro se insere em uma disputa simbólica sobre quem pode ocupar, interpretar e narrar a cidade. Ao levar a comunidade surda para um dos marcos fundacionais de Belém, o evento aborda uma história tradicionalmente contada a partir de vozes hegemônicas e propõe novas leituras.
Dentro do repertório de Michel Pinho, os temas possíveis são amplos e atravessam diferentes dimensões do patrimônio. A própria fundação de Belém, ligada à ocupação portuguesa na Amazônia, pode ser revisitada sob a ótica da diversidade cultural. O forte, enquanto símbolo militar e colonial, também abre espaço para discussões sobre memória, apagamentos históricos e disputas de narrativa. Outro eixo recorrente é o conceito de patrimônio imaterial: as práticas, saberes e expressões culturais que vivem no cotidiano da cidade e que, muitas vezes, não são acessíveis à população surda pela ausência de mediação linguística.
A aula pública também pode dialogar com o direito à cidade, conceito central nas ciências humanas, que trata do acesso democrático aos espaços urbanos. Nesse caso, a acessibilidade garantida pela presença de intérpretes de Libras deixa de ser um detalhe e se torna condição essencial para a cidadania plena.
Os números ajudam a dimensionar a importância dessa iniciativa. De acordo com o IBGE, o Brasil possui cerca de 14,4 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, o equivalente a 7,3% da população. Dentro deste universo, aproximadamente 2,6 milhões de brasileiros têm dificuldade para ouvir, enquanto cerca de 2,3 milhões se identificam como surdos ou com grande perda auditiva. Quando se considera todos os graus de deficiência auditiva, o contingente ultrapassa 10 milhões de pessoas, cerca de 5% da população nacional.
Em Belém, cidade com cerca de 1,3 milhão de habitantes segundo o Censo 2022 do IBGE, é possível traçar uma estimativa a partir desses dados nacionais. Considerando que aproximadamente 5% da população brasileira possui algum grau de deficiência auditiva, isso indicaria um contingente de cerca de 65 mil pessoas na capital paraense vivendo com limitações relacionadas à audição.
Mesmo adotando um recorte mais restrito, como o de pessoas com grande dificuldade ou surdez, ainda se chega a um grupo de dezenas de milhares de moradores, um número expressivo que reforça a urgência de políticas públicas e ações culturais voltadas à acessibilidade e inclusão.
Essas desigualdades aparecem também na educação: pessoas com deficiência enfrentam taxas mais altas de baixa escolaridade e menor acesso ao ensino superior. No caso da comunidade surda, a barreira linguística é um dos principais fatores de exclusão.
Por isso, iniciativas como a do Instituto Felipe Smaldone com o auxílio luxuoso do professor Michel Pinho, ultrapassam o caráter pontual de um evento. Elas atuam como intervenções no espaço público, reposicionando sujeitos historicamente marginalizados como protagonistas de suas próprias narrativas. Ao ocupar o Forte do Presépio com Libras, a comunidade surda reescreve a história do seu jeito de se expressar.