- 17 de março de 2026
Polícia pede prisão de tenente-coronel por morte de esposa PM
A Polícia de São Paulo pediu nesta terça-feira, 17, a prisão preventiva do tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, suspeito da morte da mulher, a soldado Gisele Alves Santana, de 32 anos, encontrada baleada na cabeça no apartamento do casal, no Brás, região central da capital.
O caso foi registrado inicialmente como suicídio, mas, diante de contradições, passou a ser tratado como morte suspeita. Até a última atualização desta reportagem, o Poder Judiciário não havia se pronunciado sobre o pedido. Procurada para comentar sobre o caso, a defesa do policial ainda não se manifestou. O espaço segue aberto.
Familiares relataram à polícia que o relacionamento entre os dois era conturbado. Em depoimento, a mãe de Gisele afirmou que a filha era proibida pelo marido de usar batom, salto alto e perfume.
Mensagens divulgadas pela defesa da família mostram que a soldado temia as crises de ciúmes do marido. “Qualquer hora ele me mata”, escreveu ela a uma amiga, segundo os advogados.
Neto foi afastado das funções no dia 3 de março, no contexto das investigações sobre a morte da esposa. De acordo com a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), o pedido de afastamento partiu do próprio oficial.
O órgão informou que as circunstâncias do caso são apuradas em procedimentos conduzidos pela Polícia Civil e pela Corregedoria da Polícia Militar. A investigação está a cargo do 8º Distrito Policial, no Brás.
A decisão de investigar a morte como suspeita ocorreu depois de um novo laudo necroscópico, realizado após a exumação do corpo, apontar lesões no rosto e no pescoço da vítima. Segundo peritos, há sinais de que ela desmaiou antes de ser baleada na cabeça e que não apresentou defesa.
O tenente-coronel afirmou que, naquele dia, acordou por volta das 7h e foi até onde Gisele dormia. Segundo ele, os dois estavam passando as noites em quartos separados há cerca de oito meses.
— Eu falei para ela: “Olha, depois daquela conversa que a gente teve ontem, eu acho melhor a gente se separar mesmo”. Ela levantou um pouco exaltada, me empurrou para sair do quarto e bateu a porta com muita força — afirmou.
Ele contou que então foi tomar banho e, quando estava dentro do banheiro, ouviu um disparo. Diz também que naquele momento saiu do banheiro e viu Gisele no chão com uma poça de sangue em volta da cabeça.
— Botei uma bermuda, peguei o celular e saí do banheiro. A primeira coisa que eu fiz foi abrir a porta do apartamento. Quis deixar 100% aberta para dar toda a transparência e dali liguei primeiro para os bombeiros, depois para o Samu e depois para a polícia — disse.
Uma vizinha do casal, no entanto, afirmou à polícia que acordou às 7h28 depois de ouvir um estampido único e forte vindo do apartamento. De acordo com o portal g1, a primeira ligação dele foi para a PM, registrada às 7h57. Minutos depois, às 8h05, ele ligou para o Corpo de Bombeiros. As equipes chegaram ao local às 8h13.
Questionado sobre o depoimento da vizinha, ele afirmou que não são sabe “se ela estava sonolenta e viu o horário errado”.
— Você acredita no que ela fala ou no que eu estou falando? — perguntou o tenente-coronel durante entrevista ao apresentador Eleandro Passaia, do programa Balanço Geral, da TV Record. — Não tenho porque mentir. Não sei se ela estava sonolenta e viu o horario errado. Nao posso falar pelas outras pessoas. Posso falar por mim.
Suspeitas
Os socorristas conseguiram reanimar a policial no local. Enquanto tentavam salvá-la, relataram que o marido permaneceu ao telefone com superiores e não demonstrava desespero.
Um dos socorristas relatou em depoimento ter estranhado a cena e decidiu fotografá-la. Segundo ele, a arma estava encaixada na mão de Gisele de uma forma incomum para casos de suicídio.
Outros elementos também chamaram a atenção. O sangue já estaria coagulado e o cartucho da bala não foi encontrado. Embora o tenente-coronel tenha afirmado que estava no banho no momento do disparo, ele estaria seco e não havia água no chão do apartamento.
Às 8h55, Gisele foi retirada do prédio ainda com vida, em uma maca. O tenente-coronel aparece sentado no corredor.
Testemunhas relataram que, nesse intervalo, ele teria tomado banho, mesmo após orientação de policiais para que não o fizesse. Policiais militares que participaram da ocorrência também afirmaram que o oficial voltou com forte cheiro de produto químico.
Durante a entrevista à TV Record, ele alegou que a morte da mulher havia feito a pressão dele chegar a 18 por 20 e que, durante a ocorrência, “alguém” sugeriu que ele tomasse um banho quente.
Limpeza do apartamento
De acordo com testemunhas, três policiais militares foram ao imóvel horas após a ocorrência para limpar o local — o que pode ter comprometido a preservação da cena. Conforme apurou o G1, as agentes chegaram ao prédio às 17h48 do dia 18 de fevereiro, mesmo dia em que Gisele foi baleada, e entraram no apartamento acompanhadas por uma funcionária do edifício.
O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto alegou que o apartamento já estava liberado pela perícia e que a limpeza foi ordenada pelo “comandandate” dele na PM para preservar a família de Gisele, que buscaria pertences dela no imóvel.
— O meu comandante, para preservar a família da Gisele que ia lá retirar roupas dela, pensando no bem estar dos pais dela, cordialmente, pediu para que fossem lá fazer a limpeza — alegou o tenente-coronel.
Da Agência O Globo