- 26 de fevereiro de 2026
Com farinha, açaí e sanduíches no cardápio popular, Belém vira exemplo do avanço da obesidade no país
Em Belém, a combinação que molda a identidade cultural da mesa paraense, composta por farinha d’água em abundância, tigelas generosas de açaí e a popularização de sanduíches calóricos, ajuda a explicar por que a capital paraense aparece entre as cidades com maior incidência de obesidade do país. Mais do que tradição alimentar, o problema está no excesso e na forma de consumo: porções grandes, alta densidade energética e rotina cada vez mais sedentária.
Dados mais recentes da pesquisa Vigitel, do Ministério da Saúde, mostram que a prevalência da obesidade no Brasil saltou 118% entre 2006 e 2024, alcançando 25,7% da população adulta. Ou seja: um em cada quatro brasileiros adultos vive com obesidade. Quando se considera o sobrepeso, que é quando o Índice de Massa Muscular está acima de 25 kg/m², o índice chega a 62,6%, alta de 46,9% no período. O IMC é o peso dividido pela altura multiplicada por ela mesma.
Nesse cenário, Belém foi citada como a terceira capital com maior prevalência, segundo análises divulgadas na imprensa nacional, incluindo reportagens de O Globo com base no Vigitel. A posição coloca a cidade no centro de um debate que vai além da balança.
Excesso calórico
Especialistas ouvidos pelo Ministério da Saúde em levantamentos epidemiológicos apontam que nenhum alimento isoladamente causa obesidade. O açaí, por exemplo, é rico em antioxidantes e gorduras boas. O problema surge quando ele é consumido com açúcar, ou sem açúcar, mas acompanhado de frituras, como é habitual entre os paraenses, ou ainda quando é misturado com xarope e granola açucarada, como nas cidades do Sudeste e Sul.
O mesmo ocorre com a farinha de mandioca, elemento tradicional e quase obrigatório da culinária paraense, que em grandes quantidades diárias eleva significativamente a carga de carboidratos da dieta. Já os sanduíches, vendidos em lanchonetes e trailers nas ruas, muitas vezes ricos em gorduras saturadas e ultraprocessados, completam a equação. Somados a rotinas com pouca atividade física, esses hábitos formam um ambiente propício ao ganho de peso.
Riscos ampliados
A obesidade é reconhecida como doença crônica e fator de risco para uma série de complicações. Entre os principais riscos estão: diabetes tipo 2, decorrente da resistência ou produção insuficiente de insulina, hipertensão arterial, infarto e AVC, além de doenças cardiovasculares crônicas, gordura no fígado (esteatose hepática), artrose precoce, depressão e ansiedade.
Em estados da Região Norte, onde há desigualdades de acesso à saúde e infraestrutura urbana limitada para exercícios físicos, esses riscos tendem a se agravar.
O crescimento da obesidade não é um fenômeno isolado de Belém, mas a posição da capital como terceira no ranking evidencia a necessidade dos paraenses enfrentarem o problema com seriedade. Para isso, a prefeitura de Belém deveria ter uma estratégia múltipla: fortalecimento da atenção primária, políticas de incentivo à alimentação saudável, regulação de ultraprocessados e ampliação de espaços públicos que favoreçam a atividade física.
Como se sabe, a obesidade deixou de ser questão individual para se consolidar como desafio coletivo. Em Belém, onde tradição e modernidade se encontram à mesa, o debate passa por equilíbrio. Preservar a cultura alimentar amazônica é uma coisa, mas não se deve transformar hábitos cotidianos em fatores permanentes de risco.
O país já convive com 62,6% da população acima do peso, e a capital paraense ocupa posição de destaque nesse cenário. Então, como diz o caboclo: te mexe. Já passou da hora de transformar informação em política pública antes que os números cresçam ainda mais.