• 21 de fevereiro de 2026

MPF recorre contra ordem de desocupação em protesto indígena que bloqueia acessos ao porto de Santarém

Foto: Divulgação/Comunicação Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns

O Ministério Público Federal (MPF) recorreu da decisão judicial que manteve a ordem de desocupação forçada, no prazo de 48 horas, das vias de acesso ao Complexo Portuário de Santarém, no oeste do Pará. O órgão argumenta que a medida desconsidera etapas obrigatórias de mediação e pode colocar em risco a integridade física das comunidades indígenas que realizam o protesto.

A mobilização teve início por volta de 22 de janeiro, com a interdição da BR-163 e de acessos ao porto. O ato é conduzido por comunidades indígenas contrárias à inclusão da hidrovia do Rio Tapajós no Programa Nacional de Desestatização e ao projeto de dragagem do rio.

Empresas do setor logístico, como a Cargill Agrícola S.A. e a Associação dos Terminais Portuários e Estações de Transbordo de Cargas da Bacia Amazônica (Amport), afirmam que o bloqueio provoca prejuízos financeiros, paralisa o escoamento da safra de grãos e pode causar risco de desabastecimento de combustíveis e insumos na região.

O caso é marcado por decisões judiciais divergentes. Em ação movida pela Cargill, pedidos de desobstrução foram negados para priorizar a mediação. Já em processo apresentado pela Amport contra a União, a Justiça autorizou a desocupação com uso de força policial. Em instância recursal, o desembargador federal Marcus Vinicius Reis Bastos chegou a suspender o prazo de 48 horas, citando o risco de conflito e a necessidade de participação da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). Posteriormente, o juiz federal Shamyl Cipriano revogou a suspensão e manteve a ordem de desocupação, apontando a ausência dos indígenas em audiência de conciliação realizada em 12 de fevereiro e a obrigação do poder público de garantir a livre circulação e serviços essenciais.

No novo recurso, assinado pelo procurador regional da República Francisco Guilherme Vollstedt Bastos, o MPF sustenta que a decisão viola a ADPF 828, do Supremo Tribunal Federal, que prevê um regime de transição para desocupações coletivas com etapas prévias de mediação. O órgão também cita resoluções do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que exigem a elaboração de um plano de desocupação humanizado e a participação das lideranças afetadas.

O MPF aponta ainda possíveis irregularidades processuais, como a ausência de intimação prévia da Funai e do próprio Ministério Público, além da falta de citação das comunidades indígenas na ação movida pela Amport. Segundo o órgão, a retirada forçada pode gerar risco de confronto, já que entre os manifestantes há idosos, mulheres e crianças. O recurso também questiona a urgência alegada pelas empresas, afirmando que não há laudos técnicos que comprovem o risco de desabastecimento e que veículos com cargas essenciais estariam sendo liberados.

O MPF pede a revisão imediata da decisão ou, caso isso não ocorra, que o recurso seja analisado pela Turma competente, com o objetivo de suspender a desocupação até que sejam cumpridos os procedimentos de mediação e as garantias de proteção aos direitos humanos.

Relacionadas

Tartaruga-verde ameaçada de extinção é resgatada com vida em praia de Maracanã, no Pará

Tartaruga-verde ameaçada de extinção é resgatada com vida em…

Uma tartaruga-verde (Chelonia mydas), espécie ameaçada de extinção, foi resgatada viva neste sábado (11) na praia da Marieta, no município de…
Suicídio entre jovens cresce em Belém, expondo uma crise de saúde mental ignorada pelo poder público

Suicídio entre jovens cresce em Belém, expondo uma crise…

O suicídio já figura entre as principais causas de morte entre jovens em Belém. Essa realidade reafirma a crise de saúde…
Belém convive com professores envelhecidos, alta de temporários e lacunas em concursos. Onde isso vai dar?

Belém convive com professores envelhecidos, alta de temporários e…

A rede municipal de educação de Belém já enfrenta, agora mesmo, o desafio que estudos nacionais projetam para a próxima década:…