- 20 de fevereiro de 2026
Do Tapajós a Belém, indígenas vão à luta contra injustiças e enfrentam empresas pela preservação da floresta
A ocupação de uma balsa com grãos no rio Tapajós, em Santarém, nesta quinta-feira (19), é mais um capítulo de uma sequência recente de mobilizações indígenas no Pará. O protesto começou no dia 22 de janeiro, quando lideranças indígenas montaram acampamento em frente à sede da Cargill para protestar contra a dragagem do Rio Tapajós. Nesta quarta, os manfestantes ocuparam uma balsa com soja e milho nas proximidades do porto, transferindo o protesto do asfalto para as águas do Rio Tapajós.
Nos últimos anos, povos originários têm recorrido a bloqueios, acampamentos e ocupações para reagir a decisões judiciais, projetos de infraestrutura e políticas ambientais que consideram ameaçadoras a seus territórios.
As mobilizações revelam um padrão: decisões tomadas em gabinetes viram motivo de tensão nas ruas e, agora, chegam aos rios. Se os protestos variam em forma e intensidade, a pauta converge para a defesa territorial e a exigência de consulta prévia em respeito aos povos originários.
Os protestos indígenas têm um traço comum: a tentativa de influenciar decisões que ultrapassam as aldeias e se projetam sobre o modelo de desenvolvimento amazônico. No Pará, a arena política não se restringe aos gabinetes nem às conferências globais. Ela atravessa rios, ocupa prédios e alcança o interesse internacional, como aconteceu na COP30.
Entre decisões judiciais, promessas governamentais e discursos empresariais, o movimento indígena se reafirma e rejeita o papel de plateia do próprio destino. Conheça seis dos episódios mais relevantes e recentes envolvendo a mobilização dos indígenas.
1) Ocupação de balsa no Tapajós (2026)
Os indígenas interceptaram uma embarcação carregada de soja nas proximidades do terminal da Cargill, em Santarém. O ato ocorreu após decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região que determinou a liberação dos acessos terrestres ao porto, onde os indígenas já estavam acampados. Diante da ordem judicial, o protesto migrou para o rio, com críticas à dragagem do Tapajós e ao avanço do corredor de exportação. O impasse segue sob monitoramento da Polícia Federal.
2) Protestos contra a Vale durante a COP30 (2025)
Durante a realização da COP30, em Belém, em novembro de 2025, delegações indígenas organizaram atos contra a mineradora Vale, questionando os impactos socioambientais da mineração no estado. Com faixas e marchas nas imediações dos espaços oficiais do evento climático, os maniifestantes cobraram compromissos concretos de reparação e consulta prévia. A empresa afirmou cumprir exigências legais, mas o episódio expôs tensões entre discurso ambiental internacional e conflitos locais.
3) Ocupação da Seduc em Belém (2023)
Em janeiro de 2023, centenas de indígenas ocuparam a sede da Secretaria de Educação do Pará para contestar mudanças no Sistema Modular de Ensino Indígena. Após semanas de impasse, o governo estadual abriu negociação e prometeu rever pontos do modelo, com participação das comunidades.
4) Mobilizações contra o marco temporal (2023)
No contexto do julgamento do marco temporal no Supremo Tribunal Federal, indígenas paraenses realizaram atos em Belém e no interior do estado. A tese, que restringia demarcações às áreas ocupadas a partir de 1988, foi rejeitada pela Corte, mas a disputa segue no Congresso. Em dezembro de 2025, o STF reafirmou a inconstitucionalidade da regra, derrubando pontos-chave da Lei 14.701/2023, que havia retomado o marco após o Congresso derrubar vetos de Lula. A oposição segue tentando implantar o marco por meio de PECs (Propostas de Emenda Constitucional) e o tema deve voltar à tona em 2026.
5) Protestos Mundurukus contra o garimpo (2022–2024)
Povos Mundurukus intensificaram mobilizações contra o garimpo ilegal em seus territórios. Denúncias sobre contaminação por mercúrio levaram a operações federais de combate à atividade clandestina. Apesar disso, lideranças relatam que a pressão permanece e cobram fiscalização contínua.
6) Atos contra projetos logísticos na BR-163 (2022)
Indígenas e ribeirinhos protestaram contra a expansão de infraestrutura associada ao escoamento de grãos ao longo da BR-163. O receio era de aumento do desmatamento e conflitos fundiários. As obras avançaram, mas compromissos de mitigação ambiental foram anunciados após negociações locais.