• 9 de fevereiro de 2026

Criado há 90 anos, salário mínimo sustenta milhares de famílias em Belém. Mas o trabalhador ainda sua muito para ganhar tão pouco.

Foto: Agência Brasil

Viver com o salário mínimo, atualmente fixado em R$ 1.621, é o desafio de uma parcela expressiva da população de Belém. Em toda a Região Metropolitana, o piso nacional não é apenas uma referência salarial: ele define o limite de sobrevivência de milhares de famílias que dependem exclusivamente desse valor para pagar alimentação, moradia, transporte e contas básicas.

De acordo com o Censo Demográfico 2022 do IBGE, que traz a distribuição da população ocupada por faixas de rendimento, cerca de 27% dos trabalhadores da Região Metropolitana de Belém recebem até um salário mínimo, incluindo aqueles que ganham abaixo desse valor. Considerando que a RMB tinha aproximadamente 685 mil pessoas ocupadas, isso representa cerca de 185 mil trabalhadores vivendo com até um salário mínimo.

Para o município de Belém, o IBGE ainda não divulgou números absolutos fechados por faixa de salário mínimo. No entanto, com base no tamanho da população ocupada da capital e no padrão regional de renda, o economista Luís Carlos das Dores Silva, que estuda nosso mercado de trabalho, aponta que o contingente de trabalhadores que recebem até um salário mínimo na cidade pode ser estimado entre 240 mil e 250 mil pessoas. Trata-se de uma projeção técnica, construída a partir da distribuição percentual observada na Região Metropolitana e em outras capitais do Norte.

A dificuldade de viver com o mínimo fica ainda mais clara quando o rendimento é comparado ao custo dos alimentos. Dados do Departamento Intersindical de Estudos Econômicos Sociais e Estatística (Dieese) indicam que, no fim de 2025, a cesta básica em Belém custava até R$ 670, a 12ª mais cara do Brasil. Isso significa que um trabalhador que recebe o salário mínimo nacional compromete mais de 40% de sua renda apenas com alimentação.

Na prática, o valor restante precisa cobrir aluguel, transporte, água, gás de cozinha, medicamentos e outras despesas essenciais. Inclusive a energia elétrica, numa cidade em que a conta de luz é a mais cara do país. Para famílias com crianças ou idosos, o orçamento se torna ainda mais apertado, reforçando a dependência de programas sociais e de redes informais de apoio.

O economista Luís Carlos Silva, que costuma participar de quadros voltados à educação financeira e desenvolve trabalho sobre o assunto, explica por que em Belém o impacto do salário mínimo é diferenciado:

“Em Belém, o salário mínimo tem um papel crucial como base de renda para milhares de trabalhadores, mas ele ainda está muito aquém do que seria necessário para garantir uma vida digna na prática. Quando a maior parte da renda é consumida apenas para pagar alimentação e despesas essenciais, fica claro que o piso nacional, embora importante, não está acompanhando o custo de vida real da nossa cidade.”

Valor ideal

Em 2026, o salário mínimo brasileiro completa 90 anos, desde sua criação em 1936, durante o governo Getúlio Vargas. A proposta original era garantir um rendimento suficiente para atender às necessidades básicas do trabalhador e de sua família. Algo que, segundo especialistas, ainda está longe de ser alcançado.

Estudos do DIEESE, uma das principais referências do país em análises de renda e custo de vida, estimam que o salário mínimo ideal deveria estar em torno de R$ 7 mil a R$ 7,2 mil por mês. Esse valor considera despesas com alimentação, moradia, saúde, educação, transporte, vestuário e lazer para uma família de quatro pessoas.

Na comparação, o salário mínimo vigente representa menos de um quarto do valor considerado necessário para garantir uma vida digna, evidenciando o descompasso entre o piso legal e o custo real de vida. Especialmente em capitais como Belém, onde os preços de alimentos e serviços básicos pressionam o orçamento.

Especialistas reconhecem que a política recente de reajustes com ganho real ajudou a recompor parte do poder de compra do salário mínimo, após anos de estagnação. Ainda assim, os números mostram que, para centenas de milhares de trabalhadores de Belém e da Região Metropolitana, o mínimo continua sendo um valor de sobrevivência, não de conforto.

Aos 90 anos, o salário mínimo permanece como uma das mais importantes conquistas sociais do país e um pilar da renda na Grande Belém. Mas os dados também revelam um desafio persistente: transformar o piso nacional em um instrumento capaz de garantir não apenas o básico, mas condições reais de dignidade para quem vive do próprio trabalho. E está suando tanto para ganhar tão pouco.

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