• 7 de fevereiro de 2026

Belém inicia 2026 com botijão de gás gratuito e pagando caro pelo abismo social

Reprodução

Mais de 104 mil famílias de Belém devem receber o botijão de gás gratuito em 2026, segundo dados do próprio governo federal. A promessa chega no início do ano como alívio imediato para quem vive no limite, mas também levanta uma pergunta inevitável: por que uma das maiores capitais da Amazônia depende de políticas emergenciais para garantir algo tão básico quanto o gás de cozinha?

Neste começo de fevereiro, o governo federal consolidou a transição do antigo Auxílio Gás para o novo programa “Gás do Povo”, que passa a oferecer a entrega direta e gratuita do botijão de 13 quilos em revendas credenciadas, além de manter a opção de auxílio financeiro. A proposta busca mitigar o impacto da inflação no orçamento doméstico, especialmente entre as famílias mais pobres.

No Pará, a estimativa é que mais de 1,11 milhão de famílias sejam contempladas de forma gradual, com cobertura total prevista até março. Em Belém, onde 104.781 famílias já constam na folha do Programa Bolsa Família, esse público se torna prioridade para o acesso ao benefício.

Para retirar o botijão sem custo, os critérios são rígidos: estar inscrito no Bolsa Família e ter ao menos duas pessoas cadastradas no Cadastro Único (CadÚnico). O beneficiário recebe um vale digital ou via SMS, apresentado nos pontos credenciados. A entrega em domicílio, porém, segue sendo paga pelo cidadão — o que, na prática, transfere parte do custo para quem menos pode pagar.

Abismo social

A chegada do “Gás do Povo” escancara um problema estrutural. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quase 60% da população de Belém vivem em áreas classificadas como favelas ou comunidades urbanas, o maior percentual entre todas as capitais brasileiras. O mesmo levantamento aponta que a Região Metropolitana de Belém é a terceira mais desigual do país, com mais de 816 mil pessoas em situação de pobreza.

O cenário se agrava ainda mais com o crescimento de 500% da população em situação de rua nos últimos oito anos, segundo dados do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas para Pessoas em Situação de Rua da Universidade Federal de Minas Gerais, com dados do Cadastro Único (CadÚnico). Um dado que expõe o colapso das políticas de habitação, emprego e assistência social. Mesmo cercada por riquezas naturais, Belém inicia 2026 com um dos piores PIBs per capita entre as capitais brasileiras. Isso mesmo: embora a capital paraense tenha o maior PIB entre as cidades do estado do Pará, geralmente aparece nas últimas posições do ranking entre as 27 capitais brasileiras, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Esta situação evidencia que a exploração econômica do estado pouco se converte em qualidade de vida para a periferia urbana.

Nesse contexto, o “Gás do Povo” deixa de ser apenas um programa social e passa a funcionar como medida de sobrevivência. De acordo com o CadÚnico, a maior parte das famílias beneficiárias vive com renda per capita inferior a R$ 810,50, o equivalente a meio salário mínimo em 2026. A prioridade dada a vítimas de violência doméstica e comunidades tradicionais tenta humanizar os números, mas não responde à questão central: até quando Belém dependerá de auxílios emergenciais para garantir o mínimo à sua população mais pobre?

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