- 5 de fevereiro de 2026
Um diploma que confronta o silêncio e espeta a nossa memória
A Universidade Federal do Pará decidiu enfrentar o tempo. E o esquecimento. Ao conceder o diploma a César Moraes Leite, estudante paraense morto pela ditadura militar, a instituição não promoveu apenas um ato administrativo póstumo. Realizou um gesto político no melhor sentido da palavra: o de reconhecer que a violência de Estado não pode ser encerrada em arquivos nem dissolvida pela passagem dos anos.
César era estudante de Matemática. Um jovem de 19 anos. Alguém que acreditava no valor do conhecimento. Foi atingido por um tiro durante a aula, no campus da UFPA, em março de 1980, quando a ditadura militar afundava em si mesma.
Como centenas de outros brasileiros, foi tragado por um período em que pensar fora da linha oficial significava risco real. Entre 1964 e 1985, ao menos 434 pessoas foram mortas ou desapareceram em decorrência direta da repressão estatal, segundo dados consolidados pela Comissão Nacional da Verdade. Cada número carrega uma biografia interrompida, projetos suspensos, famílias condenadas a conviver com a ausência. Sonhos dissolvidos.
No Pará, essa história ganha contornos ainda mais duros. A Guerrilha do Araguaia, no sul do estado, revelou a face mais violenta da ditadura no campo. Estima-se que cerca de 70 guerrilheiros tenham sido mortos ou desapareceram na região, muitos até hoje sem restos mortais identificados. Povos inteiros foram impactados, comunidades silenciadas e o medo se instalou como política pública não declarada.
O diploma concedido a César Moraes Leite não repara essas perdas, nem pretende fazê-lo. Mas cumpre uma função essencial: afirma oficialmente que a interrupção de sua trajetória não foi um acidente, nem um detalhe menor da história. Não foi “sem querer”. Foi consequência de um regime que perseguiu estudantes, trabalhadores, camponeses e intelectuais. Correu atrás de pessoas do bem, maltratou e matou essas pessoas.
Ao reconhecer César como aluno e formando, a UFPA reafirma o papel da universidade como espaço de memória e de compromisso com a democracia. Não se trata de olhar para trás por nostalgia, mas de compreender que o presente se sustenta sobre escolhas feitas. Mas também sobre omissões prolongadas.
Num país onde o esquecimento tantas vezes se confunde com reconciliação, o gesto ganha ainda mais sentido. Como advertiu o escritor uruguaio Eduardo Galeano, em frase que incomoda até hoje, pela precisão: “A impunidade é filha da má memória.”