- 1 de fevereiro de 2026
PF suspende gravações do programa ‘Área Restrita’ em aeroportos do Brasil
A Polícia Federal (PF) suspendeu as gravações do programa “Aeroporto: Área Restrita”, disponível na plataforma de streaming HBO Max, em aeroportos do Brasil por entender que as filmagens descumprem “normas constitucionais, legais e regulamentares que regem a segurança da aviação civil no Brasil”. A produtora responsável pela série, Moonshot, afirma que a PF havia concedido autorização para as gravações, porém cassou as credenciais neste mês.
Em nota, a produtora diz que começou a produção da 8ª temporada da série em dezembro com “apoio e participação ativa da Anvisa, Vigiagro, Ibama, Receita Federal, Polícia Militar do Estado de São Paulo e da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, Fraport e RIOgaleão”. A PF teria autorizado as filmagens nos aeroportos de Viracopos (VCP), Galeão (GIG) e Pinto Martins (FOR).
“Agora em janeiro de 2026, a Polícia Federal indeferiu o credenciamento de nossa equipe a ingressar nas áreas restritas em Guarulhos e caçou as credenciais para a equipe realizar as filmagens nos demais aeroportos”, diz.
No entanto, a corporação alega que “não participa do referido programa televisivo há vários anos, tendo adotado, de forma reiterada e consistente, o entendimento institucional pelo indeferimento de solicitações dessa natureza”.
“Essas decisões refletem o entendimento consolidado de que a presença permanente de equipes de filmagem em áreas operacionais restritas é incompatível com os princípios da preservação da intimidade, da imagem e da presunção de inocência dos cidadãos abordados, bem como com a necessidade de resguardar técnicas, rotinas e meios empregados na repressão a ilícitos penais, especialmente em ambiente aeroportuário”, diz em nota.
A PF defende que as áreas restritas são zonas de risco, sujeitas a rigorosos controles de acesso, limitados exclusivamente a pessoas com necessidade operacional ou funcional, “não se enquadrando atividades de entretenimento ou produção audiovisual nesse critério”. Além disso, que o Programa Nacional de Segurança da Aviação Civil (PNAVSEC) e as normas da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) “vedam expressamente o registro de imagens de procedimentos, fluxos e infraestrutura sensíveis relacionados à segurança da aviação civil”.
Para a produtora, porém, as alegações da PF contradizem o histórico de atuação do próprio órgão. “Ao longo de sete temporadas consecutivas, produzidas desde 2016, a Polícia Federal analisou e aprovou as credenciais de todos os profissionais envolvidos na produção do programa ‘Aeroporto: Área Restrita’, permitindo a realização integral das filmagens sem que tenha sido registrado qualquer incidente ou comprometimento da segurança aeroportuária”, diz.
Ao Uol, o presidente da Associação dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Unafisco), Kleber Cabral, sugeriu que a atuação da PF agora seria um caso de “ciúme institucional” relacionado à Receita por não aparecer tanto quanto os funcionários do Fisco nas gravações:
— Esse programa tem despertado um ciúme institucional horroroso por parte da Polícia Federal. (O programa) dá muito mais ênfase à área de bagagem, onde trabalha a Receita Federal. Mostra outros órgãos, (mas) os protagonistas são o pessoal da Receita.
Segundo Cabral, a Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025 e focada em sonegação e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis, também teria provocado tensão entre as instituições. A PF, porém, nega as alegações e diz que “não há qualquer disputa institucional no episódio”.
“As competências da Receita Federal do Brasil, enquanto autoridade aduaneira, são plenamente reconhecidas e respeitadas. Contudo, tais atribuições não se confundem com a responsabilidade constitucional da Polícia Federal pela supervisão da segurança aeroportuária, que prevalece em Áreas Restritas de Segurança, inclusive em recintos alfandegados, conforme previsto no ordenamento jurídico”, afirma.
A corporação diz ainda que narrativas que “tentam reduzir o tema a supostos conflitos institucionais desconsideram a gravidade das responsabilidades envolvidas e ignoram que a segurança da aviação civil”.
Fonte: O Globo