• 1 de fevereiro de 2026

‘Desdenhar do SUS é pura vira-latice brasileira’, diz Drauzio Varella em defesa do sistema de saúde público

Edilson Dantas / Agência O Globo

Em sua coluna mais recente, publicada na última quarta-feira (28) na Folha de S.Paulo, o médico Drauzio Varella confronta a noção amplamente difundida de que o sistema público de saúde do Reino Unido seria um modelo inalcançável de eficiência. Ao mesmo tempo, Varella sustenta que o Sistema Único de Saúde (SUS) é alvo de críticas desproporcionais no Brasil, muitas vezes alimentadas por comparações superficiais e idealizadas com experiências estrangeiras.

Para ilustrar o argumento, Varella relata a situação de um amigo que vive em Londres e enfrentava um quadro persistente de tosse após se engasgar com uma cápsula. Mesmo diante do desconforto e do risco, ele optou por não buscar atendimento médico. A recusa, segundo o médico, estava ligada a vivências recentes em serviços de emergência do NHS, onde aguardou entre 11 e 13 horas para ser atendido.

O mesmo personagem, no entanto, teve uma experiência distinta em solo brasileiro. Durante uma visita ao Rio de Janeiro, sofreu uma torção no pé e foi encaminhado a uma unidade do SUS. “Em dez minutos veio o ortopedista, me examinou e pediu uma radiografia”, relatou o amigo ao médico. De acordo com o depoimento, todo o atendimento foi concluído em cerca de uma hora.

A partir desse contraste, Varella questiona o motivo pelo qual o sistema britânico costuma ser celebrado como símbolo nacional, enquanto o SUS raramente recebe reconhecimento público. Ele lembra que o NHS foi homenageado na cerimônia de abertura da Olimpíada de Londres, em 2012, e provoca: “Por que na abertura da Olimpíada no Maracanã [em 2016] não fizemos o mesmo?”. Para o médico, essa diferença revela a persistência da chamada “vira-latice brasileira”.

O articulista também ressalta que a comparação entre os dois modelos ignora realidades profundamente distintas. O NHS foi estruturado há cerca de 80 anos em um país territorialmente menor, com população mais homogênea, maior escolaridade média e menor desigualdade social. O SUS, por outro lado, oferece atendimento universal a aproximadamente 215 milhões de pessoas, em um país de dimensões continentais e marcado por desigualdades regionais históricas. “É tão difícil que nenhum país com mais de 100 milhões de habitantes ousou oferecer acesso universal à saúde”, afirma.

Dados recentes divulgados pelo British Medical Journal reforçam o diagnóstico de deterioração do sistema britânico. Segundo a revista, oito em cada dez hospitais da Inglaterra mantêm pacientes em macas ou cadeiras distribuídas por corredores e áreas improvisadas. O presidente do Royal College of Physicians, Ian Higginson, descreveu o cenário como “um completo escândalo”.

Ainda conforme a publicação, esperas superiores a 12 horas estariam relacionadas a 16,6 mil mortes evitáveis registradas em 2024. Enfermeiras ouvidas pelo sindicato da categoria relataram situações extremas de precariedade no atendimento. Uma delas afirmou que “pacientes lamentam não ter ficado em casa, mesmo correndo o risco de morrer”; outra declarou que “não tratamos assim nem animais na prática veterinária”.

Diante desse contexto, Varella afirma que cresce dentro do próprio NHS a discussão sobre a adoção de estratégias inspiradas no modelo brasileiro de atenção básica. “É cada vez maior o número de técnicos do NHS que consideram o único caminho para evitar o colapso do sistema a adoção do Estratégia Saúde da Família, o programa brasileiro de atenção primária que a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera um exemplo para o mundo”, escreve.

Ao concluir o artigo, o médico reconhece que o SUS enfrenta problemas e limitações, mas defende que o debate público seja feito com base em informações concretas e não em mitos sobre sistemas estrangeiros. “Antes de repetir frases feitas sobre a excelência da saúde pública na América do Norte e na Europa, procure se informar sobre a realidade local. O SUS está cheio de defeitos que precisamos corrigir, mas, antes de vilipendiá-lo, dobre a língua”, finaliza.

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