• 26 de janeiro de 2026

Com 4 mortes confirmadas, Pará volta a registrar surto de Chagas por transmissão oral após década de alertas

Foto: Reprodução/Agência Pará

Já são 40 casos confirmados com ao menos quatro mortes por doença de Chagas, que acenderam o alerta dos órgãos de saúde de Ananindeua, da Secretaria de Estado de Saúde do Pará e do Ministério da Saúde. A Prefeitura de Ananindeua confirmou o registro de 26 casos no mês de dezembro e de 14 em janeiro, sendo confirmados quatro óbitos neste mês.

O Ministério da Saúde passou a classificar como surto a ocorrência desses casos em Ananindeua, reacendendo um alerta que especialistas em saúde pública vêm fazendo há mais de uma década sobre os riscos da transmissão oral da enfermidade, sobretudo associada ao consumo de açaí produzido sem os cuidados sanitários exigidos.

Segundo dados consolidados pela Prefeitura de Ananindeua, por meio da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), os primeiros registros ocorreram no fim de 2025. De acordo com a Sesau, 26 casos foram notificados em dezembro e 14 em janeiro, período em que também se concentram os óbitos associados à infecção. A confirmação do surto levou o Ministério da Saúde a reforçar o acompanhamento técnico da situação, em articulação com o governo estadual e com o Instituto Evandro Chagas (IEC), referência nacional em pesquisas sobre doenças infecciosas na Amazônia.

A doença de Chagas é causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi e tradicionalmente associada à transmissão pelo inseto conhecido como barbeiro. Na Região Norte, porém, a via oral por meio da ingestão de alimentos contaminados tornou-se predominante nas últimas décadas, especialmente em surtos urbanos e periurbanos ligados ao consumo de açaí in natura.

Fiscalização intensificada

Em resposta ao avanço dos casos, a Prefeitura de Ananindeua afirma ter intensificado ações de vigilância sanitária e ambiental, em parceria com a Casa do Açaí, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e a Polícia Municipal. O foco está na orientação e fiscalização de batedores, manipuladores e vendedores de açaí, com o objetivo de garantir boas práticas de higiene, manipulação e armazenamento do produto.

A gestão municipal sustenta que o município permanece em “acompanhamento contínuo e integrado” com os órgãos estaduais e federais, adotando os protocolos estabelecidos pelo Ministério da Saúde para vigilância, diagnóstico e assistência aos pacientes. O tratamento da doença, quando iniciado precocemente, é oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Apesar disso, relatos de familiares de vítimas e de profissionais de saúde apontam dificuldades no diagnóstico inicial, em razão dos sintomas inespecíficos da fase aguda da doença, como febre prolongada, mal-estar, dores no corpo e alterações gastrointestinais. Sinais que podem ser confundidos com viroses comuns na região.

Problema recorrente

O surto atual se soma a um histórico persistente de transmissão oral da doença de Chagas no Pará. Dados do Ministério da Saúde e de estudos epidemiológicos indicam que, nos últimos dez anos, foram notificados mais de 1.000 casos de doença de Chagas aguda associados ao consumo de alimentos contaminados, principalmente açaí, no Estado e em municípios vizinhos da Região Norte. O Pará concentra a maior parte dessas ocorrências.

Embora os números oscilem de ano para ano, especialistas apontam que a repetição de surtos evidencia fragilidades estruturais na fiscalização sanitária da cadeia produtiva do açaí, um alimento central na dieta e na economia local. O produto, quando processado sem higienização adequada dos frutos e dos equipamentos, pode se tornar vetor da contaminação ao triturar insetos ou resíduos infectados junto à polpa.

Autoridades de saúde têm reiterado que não há recomendação para suspender o consumo de açaí, mas reforçam a necessidade de que a população priorize produtos de estabelecimentos regularizados e que sigam as normas sanitárias, como o branqueamento do fruto.

O branqueamento é um choque térmico em que os frutos são imersos em água quente (80 a 90 graus) por cerca de 10 segundos, seguido de resfriamento imediato. É um procedimento essencial para segurança alimentar, afastando o risco de microrganismos, principalmente o protozoário Trypanosoma cruzi, que transmite a doença de Chagas, e da Salmonella – sem alterar sabor ou cor. 

Alerta à população

Com o reconhecimento do surto, as secretarias de saúde reforçaram o alerta para que pessoas que tenham consumido açaí recentemente e apresentem sintomas persistentes procurem atendimento médico. A detecção precoce é considerada decisiva para reduzir complicações graves e o risco de morte.

Como evitar a contaminação do açaí pela doença de Chagas

A Vigilância Sanitária recomenda cinco passos essenciais na manipulação do açaí para reduzir o risco de contaminação:

Seleção e lavagem rigorosa dos frutos

Retirar impurezas e lavar os cachos e os frutos em água potável antes do processamento.

Branqueamento térmico

Submeter o açaí à água quente por curto período, procedimento que ajuda a eliminar o protozoário causador da doença.

Higienização de equipamentos e utensílios

Limpar e desinfetar batedeiras, peneiras e recipientes antes e após o uso.

Ambiente de preparo adequado

Manter o local de manipulação protegido de insetos, com superfícies limpas e organização adequada.

Armazenamento e refrigeração corretos

Conservar o açaí em temperaturas adequadas e evitar o consumo de produto armazenado por longos períodos sem refrigeração.

Relacionadas

Ausência de testamento abre caminho para Suzane von Richthofen ficar com R$ 5 milhões em bens do tio

Ausência de testamento abre caminho para Suzane von Richthofen…

Um levantamento feito em todos os cartórios de São Paulo comprovou que Miguel Abdalla Netto, de 76 anos, não deixou testamento.…
Norma define novas regras para descarte de caroços de açaí em Belém; confira

Norma define novas regras para descarte de caroços de…

A partir de agora, o descarte de caroços de açaí em Belém passa a seguir regras específicas de armazenamento, coleta e…
Michael Schumacher ‘não está acamado’, diz jornal inglês sobre estado de saúde de lenda da Fórmula 1

Michael Schumacher ‘não está acamado’, diz jornal inglês sobre…

Desde que sofreu um acidente enquanto esquiava, em dezembro de 2013, a lenda da Fórmula 1 Michael Schumacher não é visto…