• 24 de janeiro de 2026

Com o peso da torcida apaixonada e a memória do Hino Nacional cantado à capela, Belém quer se despedir da Seleção em casa

Foto: Reprodução/Agência Pará

A possibilidade de Belém receber o último amistoso da seleção brasileira antes da Copa do Mundo de 2026 ganhou força nos bastidores da CBF nas últimas semanas. A capital paraense entrou oficialmente na disputa para sediar a partida preparatória e apresentou argumentos que combinam logística internacional, histórico recente da seleção no estádio do Mangueirão e um dos ambientes de arquibancada mais ruidosos – e bonitos – do país.

O Estádio Olímpico do Pará, o Mangueirão, passou por ampla reforma e foi reinaugurado em 2023 com capacidade para cerca de 53 mil espectadores, segundo dados do governo do Estado. Desde então, voltou a receber grandes eventos esportivos e culturais. Em setembro daquele ano, foi palco da vitória da seleção brasileira por 5 a 1 sobre a Bolívia, pelas eliminatórias sul-americanas da Copa de 2026, em jogo que marcou a estreia de Fernando Diniz no comando da equipe.

A presença da seleção em Belém não é inédita. Antes disso, o Mangueirão já havia recebido partidas oficiais do Brasil, como o empate por 0 a 0 com a Venezuela, em 2008, e amistosos ao longo das últimas décadas. De acordo com a CBF, mais de 45 mil torcedores estiveram presentes no duelo contra a Bolívia, número próximo da capacidade máxima do estádio, com ingressos esgotados dias antes da partida.

Nos corredores da confederação, pesa também o argumento logístico. Belém está entre as capitais brasileiras mais próximas dos Estados Unidos, um dos países-sede do Mundial de 2026, ao lado de México e Canadá. A Federação Paraense de Futebol informou, em ofício encaminhado à CBF, que a distância aérea entre Belém e Miami é inferior à de capitais do Sudeste, o que reduziria o tempo de deslocamento da delegação na véspera da competição.

Outro ponto citado é a adaptação do gramado. Segundo o governo estadual, existe o compromisso de adequar o piso do Mangueirão ao mesmo padrão exigido pela Fifa para a Copa, o que permitiria à comissão técnica realizar a última preparação em condições semelhantes às que nosso escrete encontrará no torneio. A informação foi confirmada pelo presidente da Federação Paraense de Futebol, Ricardo Gluck Paul, em entrevista ao jornal O Liberal.

A candidatura de Belém também se apoia em fatores culturais. O Pará tem uma das torcidas mais engajadas do Norte do país, impulsionada pela rivalidade histórica entre Remo e Paysandu. O clássico Re-Pa, reconhecido como patrimônio cultural imaterial do Estado desde 2016, costuma levar dezenas de milhares de torcedores ao Mangueirão, mesmo em fases esportivas adversas. Em 2023, por exemplo, um Re-Pa pela Série C do Campeonato Brasileiro reuniu público superior a 40 mil pessoas, segundo a CBF.

Emoção em reprise

Esse envolvimento se traduz em espetáculo nas arquibancadas. Na vitória sobre a Bolívia, o momento mais marcante não ocorreu durante um dos cinco gols, mas antes do apito inicial. Quando o sistema de som falhou, o público cantou o Hino Nacional Brasileiro à capela, em uníssono, por mais de um minuto — cena que ganhou repercussão nacional e foi destacada pela própria CBF em suas redes oficiais. 

E não foi a primeira vez. A mesma emoção foi proporcionada, também aqui, em 2011, quando a torcida paraense continuou cantando, à capela, após o final da execução do hino pelo sistema de som do estádio. Foi de arrepiar o Brasil inteiro. Naquela ocasião, o Brasil bateu a Argentina por 2 a 0, conquistando o Superclássico das Américas.

Para Ricardo Gluck Paul, a escolha de Belém seria também simbólica. “Estamos oferecendo uma cidade preparada, com estádio moderno, logística favorável e uma torcida que já mostrou o quanto se conecta emocionalmente com a seleção. Não é apenas um jogo, é uma despedida à altura”, afirmou.

A decisão final cabe à CBF, que ainda avalia propostas de outras capitais, como Rio de Janeiro e cidades do Nordeste. Internamente, porém, há o reconhecimento de que levar a despedida da seleção para fora do eixo tradicional pode reforçar a ideia de um futebol nacional mais representativo e conectado com diferentes regiões do país.

E talvez seja justamente aí que Belém encontre seu maior trunfo. Porque no Mangueirão, quando a bola rola, o tempo parece suspenso. O torcedor canta como quem reza, sofre como quem ama e celebra como quem reconhece, em cada jogador de futebol, um pedaço de si msmo. Nelson Rodrigues dizia que “o futebol é a pátria de chuteiras”. Em Belém, essa pátria costuma cantar alto — tão alto que dispensa microfones.

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