• 21 de janeiro de 2026

Data de hoje lembra compromisso de impor um freio à intolerância religiosa na terra da diversidade

Reprodução: Divulgação

Na manhã em que Mãe Ju, líder de um terreiro de Umbanda no bairro de Canudos, em Belém, acordou com o coração pesado, o som do tambor foi substituído pelo peso de uma decisão judicial. A ordem era encerrar as atividades no espaço que também era sua casa. A justificativa técnica: “perturbação sonora”. É impossível disfarçar mais um dentre muitos episódios de preconceito travestido de procedimento burocrático. 

Quase um ano depois, em outubro de 2025, líderes religiosos de matriz africana participaram de uma sessão especial na Assembleia Legislativa do Pará, para denunciar o aumento de episódios de racismo, perseguição e violência contra espaços sagrados e praticantes no estado, especialmente em Belém.

Para a mãe de santo Jussilene Natividade Maia, a Mãe Ju, a ordem de despejo de que seu terreiro foi alvo, revelou a expressão concreta de um preconceito que insiste em confundir fé com barulho e tradição com incômodo. Acrescido da explícita falta de respeito. Um episódio que não se deve esquecer na data de hoje, 21 de janeiro, Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. 

Diversidade

Belém é uma cidade de fé múltipla e vibrante. Aqui, a vida espiritual se anuncia em procissões como a do Círio de Nazaré, que arrasta milhões de devotos católicos todos os anos, e também na presença dos terreiros de candomblé e umbanda, cujos rituais ecoam a ancestralidade africana na metrópole amazônica. 

O mapa religioso brasileiro aponta um país ainda majoritariamente católico, com cerca de 56,7% da população, mas com evangélicos em crescimento, representando 26,9% dos brasileiros, e com um aumento de adeptos de religiões de matriz africana, que juntas passaram a ser mais visíveis no censo mais recente, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Essa diversidade se manifesta com intensidade no Pará e em Belém, onde, além das grandes expressões cristãs, as religiões de matriz africana e outras tradições encontram espaço de culto e afirmação cultural. 

O problema é que essa convivência nem sempre se dá em um plano de igualdade. Episódios de racismo religioso, ofensas e até ameaças a praticantes de religiões afro-brasileiras têm sido denunciados tanto em áreas urbanas como na região metropolitana. Em novembro de 2025, líderes dessas tradições relataram perseguições, fechamento de espaços sagrados e discursos de estigmatização que transcendem meras queixas de vizinhança e exalam um racismo religioso profundo.

Pluralidade

A Constituição brasileira consagra o Estado laico e assegura a liberdade de crença, direito que deveria ser celebrado em cada templo, igreja ou terreiro. Ainda assim, a discriminação persiste em atitudes que negam aos terreiros os mesmos direitos básicos reconhecidos a outras formas de fé, e coagem pessoas a esconderem suas práticas ou a lutarem na justiça por algo que deveria ser natural: o respeito. 

Todo ataque a um símbolo religioso, seja uma imagem sacra de qualquer devoção ou o ataque em homenagem às entidades consagradas, é um atentado à própria noção de pluralidade que define nossa sociedade. 

Celebrar a diversidade religiosa é mais do que listar percentuais numéricos. Significa reconhecer que o espaço público deve ser um lugar de acolhimento, onde um católico se ajoelha com devoção, um evangélico entoa um cântico e um praticante de umbanda ou candomblé saúda seus orixás sem medo de olhar torto ou mão armada.

O sociólogo Gilberto Freyre disse, em outras palavras, que negar a pluralidade de um povo é como empobrecer a si mesmo. Isso significa que a fé, seja qual for a origem, enriquece o tecido social, daí porque a intolerância, essa sim, empobrece o espírito coletivo.

O Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa foi instituído para promover o respeito à diversidade de crenças e homenagear Mãe Gilda de Ogum, líder do candomblé, que faleceu em 2000 após ataques intolerantes. Ela simboliza a luta contra o racismo religioso, que afeta principalmente religiões de matriz africana e reforça a importância do Estado laico e da liberdade de culto. 

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