• 19 de janeiro de 2026

Pará desata o nó do tráfico de drogas na Amazônia; saiba como o estado se tornou corredor estratégico para os traficantes

Reprodução: Divulgação/ Ag. Pará

O Pará vive hoje um dos cenários mais desafiadores de sua história na segurança pública. Situado em uma posição geográfica privilegiada, o estado consolidou-se como o principal “hub” logístico da chamada “Rota Amazônica”, uma artéria vital que conecta os produtores de cocaína nos países andinos aos mercados consumidores da Europa e África. 

Esse “pesadelo” logístico, operado por facções como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), impõe uma rotina de tensão que o governo tenta combater com recordes de apreensões nos últimos meses e uma nova estratégia de inteligência, que busca minar o poder financeiro dos traficantes.

No centro deste tabuleiro geográfico está o Arquipélago do Marajó. Com uma área superior à de muitos países europeus e uma malha de rios que desafia qualquer satélite, municípios como Breves, Afuá e Curralinho tornaram-se zonas de transbordo fundamentais. No Marajó, o crime organizado aproveita a vulnerabilidade social e a complexidade dos “furos” para ocultar carregamentos que chegam da Colômbia e do Peru via Tabatinga (AM).

A droga, muitas vezes transportada em fundos falsos de embarcações pesqueiras ou balsas de carga, é fracionada nessas comunidades para evitar grandes perdas em caso de blitz. Do Marajó, o entorpecente segue dois caminhos: a capital Belém, para abastecer o mercado interno e o Nordeste, ou o porto de Barcarena, onde a logística de exportação se mistura ao comércio legítimo de commodities.

Asfixia financeira

Para enfrentar esse ecossistema, a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SEGUP) mudou o foco. Se antes o combate era puramente ostensivo, hoje a prioridade é o “asfixiamento financeiro”. O ex-delegado da Polícia Federal, e até semana passada secretário de Segurança, Ualame Machado, agora realocado para a Secretaria de Saúde do Pará, destacou recentemente que o sucesso das operações não se mede apenas em quilos de entorpecentes, mas na desarticulação da engrenagem econômica do crime.

Em declaração oficial sobre o desempenho das polícias, o então secretário de Segurança reforçou a importância da presença do Estado em pontos cegos do mapa: “Nós temos investido muito em inteligência, em estratégia e em equipamentos, a exemplo da Base Integrada Fluvial Antônio Lemos, que fica em uma área estratégica por onde passam as embarcações que vêm de outros estados vizinhos, como o Amazonas e o Amapá, e de outros países vizinhos também”, afirmou à Agência Pará. Segundo ele, o objetivo é garantir que o estado deixe de ser um caminho viável para o lucro ilícito das facções.

Tecnologia x crime

No campo operacional, o uso de tecnologia tem sido o diferencial. O Grupamento Aéreo de Segurança Pública (GRAESP) agora opera com drones de longo alcance e aeronaves equipadas com sensores termais para identificar pistas de pouso clandestinas na mata densa. O resultado prático é visível: em 2024, o Pará alcançou a marca histórica de mais de 13 toneladas de drogas apreendidas, um aumento superior a 60% em relação ao ano anterior.

Apesar da presença do crime organizado, os índices de violência letal apresentam um recuo sistemático. Segundo dados da Segup, a taxa de Mortes Violentas Intencionais (MVI) caiu de 56,6 por 100 mil habitantes em 2018 para 29,5 em 2024. No primeiro semestre de 2024, o estado registrou uma queda de 57,42% nos Crimes Violentos Letais e Intencionais (CVLI).

Contudo, a capilaridade das facções no Pará foi reafirmada recentemente pela Polícia Federal, que prendeu 42 suspeitos acusados de gerenciar o tráfico interestadual a partir de solo paraense. A implementação de bases flutuantes e o foco na lavagem de dinheiro são, hoje, as principais apostas para que o Pará consiga, finalmente, retomar a soberania plena sobre suas águas e territórios.

PASSO A PASSO: A LOGÍSTICA DA ROTA AMAZÔNICA

O caminho da droga até o território paraense envolve uma complexa engenharia que mistura transporte fluvial, camuflagem e pontos estratégicos de redistribuição. Veja como funciona o fluxo:

  1. A origem: A pasta base de cocaína é produzida em laboratórios na Colômbia, Peru e Bolívia. A droga entra no Brasil principalmente pela fronteira com o Amazonas, na região de Tabatinga (AM), conhecida como a tríplice fronteira.
  2. O corredor do Solimões: Os carregamentos descem os rios Solimões e Amazonas em embarcações de diversos portes. Para burlar a fiscalização, as facções utilizam “mulas” (pessoas transportando pequenas quantidades) ou fundos falsos em balsas que transportam cargas legítimas, como madeira e grãos.
  3. O nó do Marajó: Ao entrar em águas paraenses, o arquipélago do Marajó funciona como um pulmão logístico. Nos municípios de Breves e Afuá, a carga é fracionada. Parte dos entorpecentes é desviada para o consumo interno e outra parte segue para a Grande Belém via embarcações de pequeno porte, que se misturam ao intenso tráfego ribeirinho.
  4. A “janela” para o exterior: O destino final da droga de alta pureza é o complexo portuário de Barcarena (Vila do Conde). Lá, o crime organizado utiliza a técnica de “rip-on/rip-off”, onde o lacre de contêineres prontos para exportação é rompido para inserir a droga e depois substituído por um clone, sem o conhecimento do dono da carga.
  5. Destinos globais: A partir do Pará, os carregamentos seguem para grandes centros portuários na Europa (como Roterdã e Antuérpia) e para a costa da África, onde o valor da mercadoria é multiplicado em euro ou dólar.

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