- 13 de janeiro de 2026
EXCLUSIVO: Quando as chamas acontecem do lado de dentro, a fumaça da suspeita ameaça a credibilidade dos Bombeiros
O fantasma da corrupção, que parecia enterrado nas cinzas do passado, ressurge com força avassaladora para assombrar o Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Pará. Há trinta anos, o então comandante José Ribamar Matos era acusado por desvios de verbas. Ironicamente, nesta mesma época, em 1995, o hoje coronel Jayme de Aviz Benjó iniciava sua trajetória na corporação. Atualmente sentado na cadeira de comando, Benjó incorpora o peso de um ciclo histórico: o que deveria ser uma instituição de salvamento transformou-se, segundo graves indícios, em um balcão de negócios e privilégios, em que o interesse público é sacrificado no balcão da ganância.
Não se trata apenas de uma falha administrativa, mas de uma traição sistemática aos valores da farda. No último mês de dezembro, o Cidade 091 revelou as entranhas de um esquema milionário que culminou na prisão do major David Barros de Araújo, braço direito do comandante. A acusação estarrecedora revela que há um dreno de recursos da Defesa Civil operado via cartões corporativos, que deveriam ser de uso exclusivo para ações humanitárias. E houve um ato de desespero para acobertar esse esquema: um incêndio criminoso provocado dentro do próprio Quartel do Comando Geral para literalmente incinerar provas e calar a verdade.
À época, o Corpo de Bombeiros afirmou a existência de uma apuração a mando do comandante, o coronel Jayme de Aviz Benjó. Entretanto, novas denúncias mostram que a corrupção no poder ocorria de forma mais sistemática. Segundo a fonte, com o auxílio do major Araújo, o próprio comandante-geral utilizava militares para a prestação de serviços particulares à sua família. Escalas semanais, de domingo a domingo, mostram o detalhamento de horários e rotas que cada bombeiro militar deveria cumprir, atuando como motorista particular para transportar membros da família e até mesmo a empregada que trabalhava em sua residência. Tudo estava organizado, registrado e distribuído como se fosse serviço oficial.
Documentos obtidos pelo Cidade 091 comprovam esse esquema. Em um dos áudios, uma mulher não identificada pergunta ao major Araújo se um militar está confirmado para buscá-la às 15h no médico. Em outro, um bombeiro dá o direcionamento para que o bombeiro escalado deixe o filho do comandante no município de Santo Antônio do Tauá e retorne no dia seguinte. O cotidiano familiar, ao que tudo indica, tinha logística militar.
Além do serviço de motorista particular, os militares também atuavam no sítio particular do comandante Benjó, no bairro do Icuí, Ananindeua. Diversas gravações mostram militares envolvidos com tarefas como instalação de telhados, limpeza de varandas e até mesmo transporte de cães do sítio. Em um dos registros, é possível ver um homem fardado realizando a poda de árvores. No WhatsApp, militares dão ciência das atividades e um deles chega a elogiar, afirmando que “o comandante gostou muito [do resultado]”. Em outras mensagens, uma lista dá o “OK” para um décimo terceiro salário na conta.

O benefício não era à toa: os militares designados para os serviços como caseiros recebiam pagamentos extraordinários. Eles apareciam nas remunerações de quem fazia parte do esquema na forma de diárias. A fonte indica que essas falsas diárias eram divididas entre os bombeiros integrantes do esquema e parte era devolvida como forma de compensação pelos valores pagos pelos serviços extras, ou então reservada para comprar animais para o sítio do comandante. A denúncia é clara e afirma a existência de uma espécie de “rachadinha” entre esses bombeiros.
Ainda no período em que o esquema estaria em funcionamento, o comandante-geral teria adquirido um veículo Toyota Corolla XEi, de cor vermelha, que pertencia ao major Araújo, além de um iPhone de última geração. As aquisições teriam sido realizadas na mesma época em que ocorreram os desvios milionários de recursos públicos.
Um extrato de cartão de crédito anexado à denúncia, identificado como “Cartão Pagamento Setor” e que traz o nome do comandante-geral Jayme de Aviz Benjó como titular, indica que o instrumento teria sido utilizado de forma muito distante de sua finalidade humanitária. Os registros apontam para uma verdadeira “farra” em diversos estabelecimentos de Fortaleza (CE) e Belém, um total de R$1.464.329,79 em gastos:
– Compras na loja Vende Mais Home, nos valores de R$197.300,50; R$198.700,56; e R$197.995,28;
– Gastos de R$98.000, R$96.000 e R$95.300 na BM Car Service, especializada em manutenção de veículos;
– Despesas de R$196.302,60 e de R$97.500,00 nas joalherias Acium e Top Joias;
– Gasto de R$191.530,85 no bar Geladão dos Amigos;
– Uma compra não identificada no valor de R$95.700, em máquina de cartão registrada como MarceloAntunesDe.

Em áudios recebidos pela reportagem, o major Araújo conversa com um policial militar sobre a necessidade de “ver aquele negócio lá”. Segundo a fonte, trata-se de uma ligação gravada na qual o oficial demonstraria a intenção de passar o cartão corporativo em máquinas de crédito, com o possível objetivo de sacar valores em espécie. Em uma segunda gravação, tempos depois, a voz atribuída a Araújo resume o momento com uma frase curta e reveladora: “a coisa ficou feia”.
O esquema começou a dar errado em meados de novembro de 2024. No dia 22 daquele mês, o major Araújo, de acordo com depoimento, teria formatado o seu celular, no qual poderiam haver provas das irregularidades. Ele negou as afirmações.

No mesmo período em que teria formatado o celular, o major compareceu ao quartel do Comando Geral após o expediente. Ele não nega a presença, mas afirma que a ida pode ter ocorrido em razão da natureza dos serviços que prestava ao comandante-geral. Após deixar Benjó em casa, Araújo afirmou não se recordar do que fez em seguida.
No dia 3 de dezembro, o major Araújo teria solicitado caixas de álcool ao Grupamento de Socorro e Emergência (GSE). Seis dias depois, na madrugada do dia 9 para 10 de dezembro, o CBMPA teve o seu gabinete do Comando Geral destruído no infame incêndio. De acordo com laudo técnico da Polícia Científica, o incidente teria sido “intencionalmente provocado”, com características de “ação externa deliberada”.
O laudo também apontou a existência de múltiplos focos de fogo, vestígios de agentes acelerantes, como álcool a 70%, marcas de fluido escorrido e manchas que indicam o uso de álcool etílico como catalisador, especialmente na almofada sob a mesa principal e no piso da sala. De acordo com laudo técnico da Polícia Científica, o incêndio passou longe de ter sido um acidente.
O espaço incendiado armazenava os documentos que detalham as despesas milionárias realizadas com o cartão corporativo do Comando Geral. O depoimento, cinco meses após o ocorrido, mostra que o major Araújo teria solicitado uma limpeza do local antes da perícia. Ainda, o braço direito de Benjó afirmaria que “não era bom o comandante ver aquilo”. Apesar de as investigações o apontarem como autor do incêndio, o oficial negou as acusações.
Após o incêndio, foi constatado o desaparecimento de três litros de álcool. Araújo afirmou não ter conhecimento do ocorrido e declarou não ser responsável pelo recebimento, solicitação ou distribuição do material, apesar de ter solicitado caixas de álcool dias antes do incidente. Segundo ele, o incêndio teria sido acidental, versão que, de acordo com o próprio major, teria sido corroborada por outros membros da corporação, incluindo o comandante-geral.

Outro ponto também negado pelo ex-ajudante de ordens é o de que teria solicitado, dias antes, uma chave estrela compatível com a que dava acesso ao gabinete do comandante-geral. Ele alegou que a chave que solicitou pertencia ao sítio do comandante e a utilizaria para confecção de uma cópia.
Araújo confirmou apenas uma coisa: o uso de veículos descaracterizados da corporação para atender a família do comandante. Ele enfatizou que este sabia de tudo, esmiuçando a rotina na gestão dos compromissos familiares do oficial.

O major Araújo segue encarcerado no Complexo de Americano, servindo como bode expiatório de um esquema muito maior para financiar luxos privados com recursos que, supostamente, deveriam ser utilizados para salvar vidas.
As atenções agora se voltarão para março de 2026, quando está prevista a audiência do major Araújo e o tribunal terá a responsabilidade de vasculhar, minuciosamente, todos os escombros do gabinete incendiado. Enquanto isso, o silêncio institucional do Corpo de Bombeiros Militar do Pará soa mais alto do que qualquer sirene.